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domingo, 26 de novembro de 2017

PODE UM CRENTE PERDER A SUA SALVAÇÃO?



UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE?

doutrina da segurança condicional do crente na carta aos Hebreus (extraído do livro: SUPREMACIA DE CRISTO - Fé, Esperança e ânimo na carta aos Hebreus, CPAD, 2017)

                                                                                     José Gonçalves, articulista, escritor e comentarista de Lições Bíblicas da CPAD. Bacharel em teologia pelo Seminário Batista de Teresina, graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí. Ensinou grego, hebraico e Teologia Sistemática na Faculdade Evangélica do Piauí e no Instituto Bíblico Pentecostal de Teresina. 



“Vede, irmãos, que nunca se ache em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.12, ARA).
“Porque é impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e depois caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; visto que, quanto a eles, estão crucificando de novo o Filho de Deus, e o expondo ao vitupério” (Hb 6.4-6, ARA).
“Porque se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma expectação terrível de juízo, e um ardor de fogo que há de devorar os adversários. Havendo alguém rejeitado a lei de Moisés, morre sem misericórdia, pela palavra de duas ou três testemunhas; de quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do pacto, com que foi santificado, e ultrajar ao Espírito da graça? (Hb 10.26-29, ARA).


Ânimo, esperança e fé em tempo de apostasia
Longe de querer provocar insegurança nos seus leitores, o autor de Hebreus tenciona conduzi-los à maturidade cristã. O seu desejo é produzir ânimo, esperança e fé em tempo de apostasia. “E desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até o fim, para completa certeza da esperança” (Hb 6.11, ARA). Todavia, sem ignorar os perigos da caminhada, ele faz severas advertências. Os perigos existem!Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo” (Hb 3.12). Os exemplos dos crentes da Antiga Aliança que morreram no deserto, e que por isso foram impedidos de entrarem na terra prometida, são usados por ele para dar o sinal de alerta. “Contra quem Deus esteve irado durante quarenta anos? Não foi contra aqueles que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?” (Hb 3.17). Se aqueles crentes tombaram no deserto porque permitiram que seus corações fossem endurecidos pelo engano do pecado, da mesma forma os crentes da Nova Aliança, também poderiam cometer o mesmo erro e ficar pelo caminho. “Pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.13). Um coração incrédulo, endurecido pelo pecado foi a causa que impediu os crentes do antigo concerto de entrarem no descanso provido por Deus.Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade” (Hb 3.10). Todavia, o autor de Hebreus lembra a seus leitores que aquele não havia sido, de fato, o descanso verdadeiro. Fora apenas um tipo daquele que Cristo veio prover.Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 3.11). Aquele fora um descanso terreno, aqui, o celestial. “Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia. Portanto, resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4.8,9).
Uma aliança superior, um sacerdote superior, um sacrifício superior
Dentro da temática abordada, o autor traz à tona o assunto do sacerdócio, e parenteticamente, continua com sua exortação. Todo o sistema sacerdotal levítico, com seu complexo sistema ritualístico, era apenas uma sombra do qual Cristo era a realidade. “Os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes, assim como foi Moisés divinamente instruído, quando estava para construir o tabernáculo; pois diz ele: Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte” (Hb 8.5). Com a manifestação de Cristo, tudo aquilo ficara antiquado, obsoleto e sem valor. Voltar atrás, portanto, era perder a realidade para mergulhar nas sombras! A antiga ordem sacerdotal passara e em seu lugar uma outra havia se estabelecido – uma ordem sacerdotal superior - a de Melquisedeque, da qual Cristo se tornara sumo sacerdote. “Tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.10). Uma verdade chocante, que com toda segurança provocaria espanto nos judeus piedosos, estava sendo demonstrada pelo o autor: Toda a lei, bem como o sistema de sacrifícios levítico havia sido abolido! Não havia como tentar viver por eles novamente. “Chamando "nova" esta aliança, ele tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer” (Hb 8.13). A Nova Aliança havia sido implantada e ela não fora estabelecida com base em sangue de animais, mas no sangue de Cristo. “Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, e obteve eterna redenção” (Hb 9.12). Voltar ao velho sistema era negar a eficácia desse sangue, era negar a Cristo. O autor alerta que quem dessa maneira agisse estaria renegando de vez o Filho de Deus (Hb 6.4-6) e por isso seria objeto de um juízo severo. “De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do pacto, com que foi santificado, e ultrajar ao Espírito da graça?”(Hb 10.29). Quem agisse dessa forma estaria cometendo apostasia e para o apóstata, o autor alerta que “é impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e depois caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; visto que, quanto a eles, estão crucificando de novo o Filho de Deus, e o expondo ao vitupério” (Hb 6.4-6).
Apostasia, desvio e tropeço
É praticamente um consenso entre a erudição bíblica que os textos acima citados estão se referindo à apostasia ou queda da fé. Mas antes de analisar essas passagens bíblicas, algumas definições são necessárias. Para a Enciclopédia Judaica, o termo apostasia é aplicado às pessoas que desertaram da fé, trocando a sua adoração por outra.[1] De acordo com Katharine Doob Sakenfeld “A palavra apostasia deriva do grego apostasia, que significa “um afastar-se de” ou “rebelar-se”.  Embora originalmente essa palavra se referia a uma rebelião política ou militar, durante o império greco-romano também veio a significar rebelião religiosa”.[2] O substantivo apostasia aparece em At 21.21 e 2 Ts 2.3. Já o verbo aphistemi, de onde se originou apostasia, é traduzido pelo léxico de Thayer como: cair, torna-se infiel a Deus.[3] Nesse sentido é usado em 1 Timóteo 4.1 como referência aqueles que haveriam de apostatar da fé.[4] Em Hebreus 3.12, o verbo aphistemi aparece no infinitivo aoristo com o sentido de cair, deixar, afastar.[5] O léxico de Kittel destaca que em Hb 3.12 é usado expressamente acerca do declínio religioso em relação a Deus. Nesse aspecto, o oposto de apostasia é dado pelo autor de Hebreus em 3.14: “Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se é que guardamos firme até o fim a nossa confiança inicial”.[6] O léxico de Bauer destaca que o termo aphistemi é muitas vezes usado na LXX, principalmente com o sentido “cair diante de Deus”, destacando que em Hb 3.12, seu sentido é o de “cair” e “apostatar”.[7] Das mais de 160 ocorrências de aphistemi na Septuaginta, 28 delas são claramente associadas a apostasia religiosa promovida por Jeroboão, filho de Nebate, e os reis que o seguiram.[8] No Novo Testamento, o termo ocorre 14 vezes, sendo um deles de uso paulino (1 Tm 4.1) e o outro do autor de Hebreus (Hb 3.12). Nessas duas últimas referências o contexto sugere um sentido de uma apostasia religiosa nos moldes do Velho Testamento. Não exatamente na forma, mas nos princípios que a motivaram.[9] Além desse vocábulo grego, há muitos outros usados na Bíblia para se referir a apostasia.  A obra The New Interpreter’s Dictionary of the Bible destaca que a apostasia, descrita comumente pelos termos hebraicos (meshuvah) e grego (apostasia) é descrita de várias forma nas Escrituras: “A Bíblia relata numerosos casos de apostasia, embora sem usar o vocabulário hebraico e grego acima mencionado; por exemplo, a "rebelião" de Saul (1 Sm 15.22-23) e aqueles que foram "iluminados", mas que "caíram" (Hb 6.4-6)”.[10]
De início é bom lembrar que a apostasia não é um pecado qualquer, nem tampouco um tropeço que o cristão teve na sua caminhada. Não é um mero desvio moral ou acidente espiritual. Fritz Laubach define como “uma ruptura completa da vida com Jesus, o abandono da verdade divina experimentada”.[11] O expositor I. Howard Marshall define como: “Negação da fé por aqueles que antes a sustentavam”.[12] De forma semelhante, o expositor Merril F. Unger define a apostasia “como um ato de um cristão, que consciente e deliberadamente, rejeita a verdade revelada da divindade de Cristo (1 Jo 4.1-3) e a redenção mediante seu sacrifício expiatório” (Fl 3.18; 2 Pe 2.1).[13] Em seu comentário de Hebreus, o expositor Adam Clarke, quando comenta sobre o apóstata, diz que ele é “alguém que rejeita completamente a Jesus e seu sacrifício e renuncia a todo o sistema evangélico. Isto nada tem a ver com os desviados no uso comum do nosso termo. Um homem pode cair repentinamente em uma falta ou ainda deliberadamente andar em pecado e, porém, não rejeitar o evangelho nem negar ao Senhor que lhe comprou. Sua situação é temerária e perigosa, mas não sem esperança. O único caso sem esperança é do apóstata deliberado, que rejeita o evangelho, depois de haver sido salvo pela graça ou convencido da verdade do evangelho. Para o tal, já não resta mais sacrifício pelo pecado, porque já houve um, o de Jesus, e ele o rejeitou por completo”.[14]
Apostasia, uma possibilidade real
Ao longo da história da igreja, algumas formas de interpretar a apostasia relatada na carta aos Hebreus têm se sobressaído.  I. Howard Marshal observa que “muitos estudiosos restringem a apostasia ao abandono temporário manifestado pelos verdadeiros crentes e ao desvio dos crentes nominais de uma profissão de fé superficial e aparência exterior, mas outros afirmam que, juntamente com as declarações da eterna segurança do crente, devem ser colocadas outras explicações que alertam aos verdadeiros crentes sobre a apostasia e sobre a possibilidade de não conseguirem encontrar a entrada para o reino de Deus (Hb 6; 10.26-29)”.[15]
A apostasia em Hebreus vista por diferentes perspectivas.
1.                 O texto realmente se refere a cristãos que perdem a salvação;
2.                 O texto é um argumento hipotético para advertir os cristãos imaturos que devem progredir rumo a maturidade. Nesse aspecto, experimentariam a disciplina ou juízo divino se não ouvissem a exortação;
3.                 O texto refere-se a cristãos professos cuja apostasia comprova que não tinham fé suficiente. Eram crentes, mas não eram regenerados;
4.                 O texto é uma referência aos réprobos, aqueles a quem Deus não havia escolhido para estar entre os eleitos.
5.                 O texto não se refere a uma queda hipotética nem tampouco a apostasia, mas apenas ao pecado ou tropeço cometido por pessoas imaturas.[16]
Uma análise do capítulo 6.4-6 de Hebreus, onde está a declaração mais severa sobre a apostasia, deve levar em conta as advertências que o autor desde o início de sua carta vinha fazendo (cap 2 e 3). Essa ênfase já era forte, todavia, não de forma tão enfática como aqui. Havia chegado o momento de ele os advertir sobre o que realmente estava em jogo - a real possibilidade de se decair da fé.
Uma hipótese improvável
Os argumentos em favor de uma “apostasia hipotética” não conseguem ser convincentes. Os que argumentam que o autor estaria tratando apenas de um “juízo” ou “disciplina” de advertência, esquecem que ele fala de uma total exclusão sem possibilidade de retorno. O comentarista bíblico Donald Guthrie, por exemplo, insiste na tese de que Hebreus 6.4-6 trata de um “caso hipotético” e não da real possibilidade de se decair da graça.[17] O expositor Millard J. Erickson, um teólogo de tradição batista, tenta achar um meio termo para solucionar o problema do caso hipotético. Ele argumenta que Hebreus 6.4-6 realmente admite a possibilidade da queda na fé, mas defende que Deus não permitiria que isso venha a acontecer.[18] Todavia, como destaca o expositor Leon Morris “a menos que o autor de Hebreus esteja falando de algo que realmente poderia acontecer, não seria uma advertência sobre nada”.[19] Morris acredita que algumas pessoas podem ter ido longe o suficiente na experiência cristã para saber do que se trata e então se desviam. Nesse caso elas estão crucificando Cristo novamente. Morris admite que o autor de Hebreus via apostasia como uma possibilidade real, que o autor de Hebreus não queria ver acontecer com seus leitores.
Muitas conjecturas, nenhum consenso
Mesmo sendo mais uma aporia do que propriamente um paradoxo, a tese que nega uma apostasia real entre crentes tem vários defensores e desdobramentos. Há uma extensa lista de comentaristas de renome que tentam buscar um outro sentido que vai além daquele que naturalmente é exposto no capítulo 6.4-6 de Hebreus. O escritor Gleason L. Archer, por exemplo, afirma que as pessoas descritas nessa passagem não eram cristãs, mas pessoas que haviam chegado ao conhecimento do evangelho através da experiência dos outros; William R. Newell tenta desqualificar essas pessoas dizendo que elas haviam “provado”, mas não tinham “bebido” da salvação; R.A. Torrey falou da “animação” dos Hebreus, mas que isso não era “regeneração”; Jonh Owen, antigo teólogo puritano, disse que “as pessoas de quem se fala aqui não são crentes sinceros e de verdade”; B.F. Wescott argumentou que o “impossível” aqui significa “impossível para o homem, mas não para Deus”; Delitzsch e Lenski argumentam que o pecado de Hb 6.4-6 é semelhante à blasfêmia no Espírito Santo (Mt 12.31), embora o texto citado, segundo eles, revele que quem blasfemou não eram crentes; G.H. Lang argumenta que o texto fala de crentes verdadeiros, todavia o julgamento ao qual o autor de Hebreus se refere não é a morte eterna, mas a física.[20]
 Todo esse leque de interpretações, conflitando entre si, mostra a dificuldade que há quando se tenta atribuir um sentido diferente daquele que o texto claramente revela – a possibilidade de cair da fé.  
Se partirmos do pressuposto de que o texto de Hb 6.4-6 está, de fato, se referindo a uma situação hipotética e que não acontece entre cristãos, então por que o autor de Hebreus iria advertir seus leitores sobre algo que jamais poderia acontecer? Eles já não estariam seguros da mesma forma? Se o autor já sabia que Deus não permitiria que isso viesse a acontecer entre os cristãos, então por que ficaria fazendo esse jogo de cena? No caso de uma apostasia hipotética, Albert Barnes, por exemplo, tenta defende-la com duas ilustrações. Para ele era como se alguém fizesse uma suposição: “Se um homem tivesse caído num precipício, seria impossível salvá-lo ou tivesse uma criança caído no córrego, certamente teria sido afogado”.[21] O problema com essas ilustrações de Barnes é que tanto o “precipício” como o “córrego” existem. Se não existissem não haveria razão para que se tentasse evitá-los.
Apostasia, salvação e regeneração
Se por um lado a teoria do “caso hipotético” não pode ser defendida biblicamente, por outro, é biblicamente inconcebível alguém ser crente e ainda assim não ser regenerado, como defende Wayne Grudem.[22] O escritor John MacArthur se debate em contorções teológicas tentando provar que essas pessoas as quais o autor de Hebreus se refere não eram crentes de verdade. Todavia, ele mesmo demonstra não ter certeza se o texto de Hebreus 6.4-6 exclui os verdadeiros crentes.[23] Essa também parece ser a opinião de Judith M. Gundry-Volf, que explica o abandono da fé em termo de “uma falsa profissão”.[24] De forma semelhante o teólogo Kenneth S. Wuest, por exemplo, se esforça para tentar provar que o autor de Hebreus estaria se referindo ao “judeu não-salvo”.[25] Se esse fosse o caso, restaria explicar porque o autor de Hebreus demonstrou tanta preocupação com esse “não-salvo” perder algo que ele nem mesmo tinha – a salvação.[26] Deve ser ressaltado aqui que o apóstolo Paulo fala da apostasia no contexto da parousia (2 Ts 2.3), que precede o aparecimento do Anticristo. O mesmo fato é aludido no contexto da igreja em 1 Tm 4.1: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demónios”. Neste último texto fica claro que a apostasia é algo que acontece dentro do contexto da igreja.
Sentindo o gosto do céu, mas proibido de entrar nele
A posição do reformador genebrino, João Calvino, é a mais radical e a mais difícil de se enquadrar no contexto de Hebreus 6. Calvino cria que esse texto se referia aos réprobos, aqueles que mesmo não tendo direito a vida eterna, Deus tocava com “o sabor de sua graça”, “iluminava suas mentes com lampejos de sua luz” e em alguma medida “gravava a sua palavra” em seus corações. A fé deles, portanto, era apenas temporária e desvanecente.[27] Mas como explicar porque Deus, sendo amor e querendo salvar a todos (Jo 3.16; 1.29; 1 Tm 2.4; 1 Jo 2.2), permitiu a esse “réprobo”, já condenado ao inferno, experimentar o sabor da salvação se não tencionava salvá-lo? Deus não seria acusado de injusto se assim procedesse? Os que acreditam na segurança condicional do crente argumentam que esse pensamento, longe de ser uma defesa de soberania de Deus, soa mais como uma distorção do Seu caráter e uma negação explicita do seu amor. Em virtude daquilo que explicitamente ensina o contexto dessa passagem, essa interpretação há muito vem perdendo fôlego entre os intérpretes.
Examinando o texto – Hb 6.4-6
A palavra grega adynatos (impossível), usada em Hb 6.4-6 como referência à impossibilidade do apóstata se arrepender novamente, ocorre dez vezes no Novo Esse termo depõe contra a teoria de uma apostasia hipotética. O autor de Hebreus usa esse termo outras três vezes em sua carta. Em Hebreus 6.18 é usada para dizer que é impossível que Deus minta. A palavra aparece novamente em referência ao sistema levítico descrevendo a impossibilidade do sangue de animais remover os pecados (Hb 10.4). Finalmente o autor ainda descreve como impossível alguém agradar a Deus sem o concurso da fé (Hb 11.6).[28] Em todos esses textos essa impossibilidade aparece de forma absoluta, como algo real e não como uma mera hipótese. A lógica é simples: Seria possível Deus mentir? Não. Seria possível alcançar a libertação do pecado através do sacrifício de animais? Não. Seria possível um crente, que consciente e deliberadamente renegou sua fé, tornando-se um apóstata, ultrajando o Espírito da Graça e crucificando novamente o Filho de Deus, expondo-o à vergonha, continuar sendo salvo? Não. O teólogo Richard S. Taylor observa que “muitas páginas foram escritas na tentativa de abrandar a severidade dessa passagem ao minimizar e enfraquecer a experiência anterior destes apóstatas, fazendo parecer que foram apenas simpatizantes do evangelho sem, na verdade, terem se tornado pessoas regeneradas. Mas esse mero jogo de palavras não merece a atenção de um exegeta sério das santas Escrituras de Deus, e torna suspeita a premissa doutrinária que aceita tal desvio”.[29]
Mais do que uma mera suposição
O contexto, portanto, da carta aos Hebreus mostra de forma inequívoca que o autor está descrevendo uma realidade factível e experimental. Reconhecidos expositores da Bíblia acreditam que o autor está retratando uma realidade possível e não apenas uma situação hipotética. Comentando Hb 6.4-6, John Wesley escreveu: “Aqui não é uma suposição, mas uma simples relação de fato. O apóstolo descreve o caso daqueles que lançaram fora tanto o poder como a forma da piedade; que perderam tanto a fé como a esperança e amor, Hebreus 6.10, etc., E isso intencionalmente, Hebreus 10.26. Desses que voluntariamente apostataram, ele declara que é impossível renová-los novamente ao arrependimento”.[30] O teólogo I. Howard Marshal observa que “um estudo das descrições oferecidas aqui em uma série de quatro particípios (aoristo grego) sugere de modo conclusivo que uma experiência genuína está sendo descrita”[31]. Da mesma forma, A.T. Robertson destaca que “todos estes extremos são apresentados como verdadeiras experiências espirituais”.[32] O autor, portanto, não estava supondo uma situação inexistente, irreal e que existia apenas subjetivamente sem qualquer implicação objetiva. 
Provou, experimentou e participou
Os particípios gregos presente em Hb 6.4-6, e que serão analisados a seguir mostram que o autor de Hebreus via esse perigo como algo real e sobre o qual se deveria tomar todos os cuidados. 
Um iluminado não pode estar nas trevas
1º - Tendo sido iluminado (particípio grego: photisthentas). Primeiramente o autor de Hebreus mostra que o apóstata é alguém que anteriormente foi iluminado, mas renegou a sua nova vida em Cristo. O expositor Neil R. Lightfoot observa que essa iluminação é uma referência à conversão.[33] De fato, o autor volta novamente a usar esse mesmo termo em Hebreus 10.32 para se referir à experiência da conversão: “Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições” (ARA).[34] Aqui o iluminado era alguém que se convertera e que, portanto, fazia parte da igreja. Por outro lado, o escritor Gerald F. Hawthorne busca na patrística e não no contexto imediato de Hebreus, que “iluminados” seria uma referência ao sacramento do batismo e não a conversão. Do mesmo modo ele defende que a expressão “provaram o dom celestial” significaria que os crentes sobre os quais o autor de Hebreus se refere teriam participado da ceia.[35]  A fraqueza dessa tese é que ela exporta para dentro do texto sentidos que são estranhos ao mesmo. O expositor Leon Morris destaca, que embora o termo “iluminado” seja usado neste sentido no segundo século, todavia esse é um uso tardio. Segundo Morris, o termo é melhor interpretado “à luz do uso geral pelo qual aqueles admitidos à fé cristã são trazidos para aquela luz que é "a luz do mundo" (João 8; 12; ver 2 Coríntios 4: 6, 2 Pedro 1:19)”.[36] Assim como Morris, o Comentario Bíblico São Jerônimo, destaca que o entendimento mais natural é ver “iluminados” como uma referência à iluminação dada pela fé em Cristo (2 Co.4.6) e “provaram o dom celestial”  como uma metáfora de provar a salvação trazida por Jesus (Rm 5.15; 2 Co 9.15).[37]  Esse sentido é visto também pelo expositor William Lane, que destaca: “essas pessoas [Hb 6.4-6] haviam testemunhado “o fato de que a salvação era a realidade inquestionável em suas vidas”.[38]  
Provou, mas não experimentou?
2º - Tendo provado do dom celestial (particípio grego: geusamenous). Em segundo lugar, o apóstata é alguém que renunciou a salvação e todas as bênçãos advindas dela.[39] Essa expressão é tida pelos intérpretes como uma referência ao ingresso no corpo de Cristo, a igreja e a sua participação nela. Alguns expositores na tentativa de negar a possibilidade do fracasso na fé mostrada nesse texto, procuram fazer uma diferença entre “provar” e “experimentar”. A ideia por trás é que essas pessoas descritas pelo o autor de Hebreus, como já foi exposto anteriormente, não eram, de fato, crentes genuínos. Elas teriam tido alguma forma de experiência, mas não uma autêntica transformação. Alguns expositores argumentam que a palavra geusamenous (provado) é usada em Mateus 27.34 para mostrar que Jesus “provou” o vinagre, mas não o “bebeu”. Dessa forma esses “crentes” também teriam “provado” a salvação, mas não haviam se tornado participantes dela. Todavia, essa exegese não fica de pé diante de Atos 20.11 e Hebreus 2.9, onde estes mesmos termos gregos revelam que “comer”, “provar” e “experimentar” são usados de forma intercambiável de acordo com a conveniência do contexto. Em Atos 20.11, por exemplo, lemos: “E subindo, e partindo o pão, e comendo, ainda lhes falou largamente até à alvorada; e assim partiu”.[40] Aqui, evidentemente, o pão foi “comido” não apenas provado. De forma análoga a redação de Hb 2.9, diz: “Vemos, porém, aquele que foi feito um pouco menor que os anjos, Jesus, coroado de glória e honra, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”. Seria um contrassenso dizer que Jesus “provou”, mas não “experimentou” a morte.
Ruach HaKodesh – uma bênção somente para crentes
3º - Tendo se tornado participante do Espírito Santo (particípio grego: genethentas). Em terceiro lugar, os que podem cair da graça são aqueles que renunciaram a esse dom. Evidentemente que essa advertência só tem validade para os crentes regenerados, visto que ninguém pode se tornar participante do Espírito Santo sem que antes nasça de novo (Jo 14.17; Rm 8.9). O expositor David H. Stern na obra Comentário Judaico do Novo Testamento destaca que “essa terminologia faz com que seja impossível que o autor esteja falando de pseudocrentes, porque apenas verdadeiros crentes se tornam participantes no Ruach HaKodesh”.[41]
Eusébio de Cesaréia x Lucas
O biblista F.F.Bruce fez uma longa exegese procurando o real sentido da expressão “tendo se tornado participantes do Espírito Santo”.[42] Como um exegeta competente e conservador, Bruce sabe que esse texto não pode ser visto apenas como um caso hipotético. Ele comenta que “tem sido questionado se é possível que alguém – que tenha sido, em qualquer sentido real, um participante do Espírito Santo – cometa apostasia, mas nosso autor não tem nenhuma dúvida de que isso é possível”.[43] A meu ver Bruce acertou quanto ao sentido desse texto, não vendo no mesmo apenas um sentido hipotético, todavia usou um exemplo inadequado na sua aplicação. Bruce toma Simão, o Mago (Atos 8), como exemplo de alguém que apostatou. Ao tomar Simão como um exemplo de um cristão apóstata, Bruce o nivela com os falsos profetas citados por Jesus em Mateus 7.22, sobre os quais Jesus dissera nunca os ter conhecido.
A dificuldade com essa tese é que ela se choca com o argumento do autor da carta aos Hebreus, que afirma que é impossível renovar o apóstata para arrependimento (Hb 6.6) e Lucas diz que o apóstolo Pedro mandou Simão se arrepender, que seria uma solicitação absurda se ele tivesse apostatado (At 8.22). De fato, o texto diz que Simão quando foi repreendido por Pedro demonstrou disposição para corrigir seu erro (At 8.24). Em palavras mais simples, o testemunho que ficou no Novo Testamento é do pedido de perdão de Simão, o que seria impossível para um apóstata fazer. Por outro lado, mesmo que Simão tivesse apostatado (como afirma Eusébio de Cesaréia, Lucas nada diz sobre isso), esse fato não depõe contra a autenticidade de sua conversão.[44] Lucas diz que o “próprio Simão abraçou a fé” (At 8.13), uma expressão que deve ser entendida como sinônima de conversão (no grego o mesmo verbo para “crer” pisteuô é usado em relação a Simão e aos demais samaritanos (At 8.12,13). Menge traduz como “assim igualmente Simão se tornou crente”.[45] Esse fato, portanto, demonstraria sim, que um crente, mesmo tendo sido regenerado, pode vir a naufragar na fé como atesta o autor de Hebreus. De fato, a palavra grega apôleia (destruição), que ocorre em Atos 8.20 é usada por Pedro antes que este exorte Simão ao arrependimento, o que demonstra que se permanecesse nessa condição pecaminosa, Simão naufragaria na fé. Isto mostra que Simão se enquadra mais no exemplo de um crente imaturo, até mesmo carnal, do que no perfil de um apóstata.
Simão x Demas
A meu ver Bruce teria sido mais feliz se em vez de Simão, tivesse posto Demas como um exemplo de crente que apostatou da fé. Em Colossenses 4.14, Paulo saúda calorosamente a todos os cristãos em nome de Demas; Em Filemon 24, Demas é identificado como cooperador de Paulo; em 2 Tm 4.10, Paulo diz que “Demas tendo amado o presente século me abandonou”. Mais uma vez o contexto é determinante para se estabelecer o sentido de um vocábulo bíblico. O termo “abandonar” (gr. enkataleipo) tem sua significação de acordo com o contexto. Tanto o léxico grego de Bauer como o de Thayer citam como exemplo de enkataleipo “abandonar, desertar” a passagem de 2 Tm 2.10.  O sentido mais natural desse texto é o de que Demas desertou da fé porque amou a presente era. Ele apostatou!
Uma bênção antecipada
 4º - Tendo provado a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro (particípio grego: geusamenos). Em quarto lugar, o apóstata é alguém que, não apenas provou do dom celestial (v.4), mas também provou da palavra de Deus e as virtudes do século vindouro (o mesmo termo grego usado no versículo 4 para “provar”, “experimentar” também é usado aqui no v.5. Eles não apenas “experimentaram”,  observa Charles Trenthan, mas “descobriram a verdade da palavra de Deus. Eles experimentaram um antegozo do que era viver na eternidade".[46] Mesmo assim, renegaram tudo isso.    
Essa sequência de particípios gregos demonstram de forma inequívoca, como afirmou Adam Clarke, que “qualquer que seja a opinião que prevaleça, existe uma terrível possibilidade de se afastar da graça de Deus”.[47]
Indo até raiz – a voz dos léxicos
O expositor W.W. Wiersbe, autor de um dos melhores comentários expositivo do Novo Testamento, argumenta contra os que creem na segurança condicional do crente, afirmando que a palavra grega apostasia não está presente no texto de Hb 6.4-6. Ele se limita a dar uma breve descrição etimológica do verbo grego parapipto, que aparece nessa passagem, como sendo o de “cair ao lado”.[48] Uma exegese mais aprofundada desse texto não pode se limitar apenas a questões léxicas, como o faz Wiersbe, mas procurar entender essa passagem no seu contexto etimológico, gramatical e contextual. O verbo grego parapipto usado nessa passagem está no particípio aoristo, parapesontas. O léxico de Moulton deu como tradução para esse verbo em Hb 6.6, os sentidos de: cair, desertar.[49] G.Abbott-Smith também traduz como cair.[50] Bullinger em seu léxico também destacou esse sentido de “queda” como uma deserção.[51] Dentre outros sentidos, Liddell e Scott destacam que esse verbo tem o sentido de “queda” e era usado também em referência a algo que foi perdido ou alguém que estava numa “situação de infortúnio”.[52] A Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego destaca que seu sentido, dentre outros, é o de renegar.[53] Esse sentido de “queda” como um desvio e abandono de um relacionamento antes estabelecido é visto no léxico grego de Friberg. [54] Friberg destaca que esse sentido passa a ser usado figurativamente no Novo Testamento como sendo: “afastar-se, cometer apostasia Hb 6.6”.[55] De modo semelhante os léxicos de Gingrich; Barclay e Newman traduzem, respectivamente, esse “cair” como um “apostatar.[56] O clássico léxico de Bauer, dentre outros significados, também define parapipto como “apostatar.[57] De forma análoga, o léxico analítico de Mounce traduziu parapipto como: “rebelar-se contra, apostatar”.[58]
Toda essa variação léxica mostra que essa palavra possui um peso semântico muito mais amplo do que lhe atribui Wiersbe. Parapipto, portanto, não é apenas um “cair ao lado”, mas também: um desvio, uma quebra de relacionamento, uma deserção, uma rebelião, uma queda – enfim, uma apostasia.
Escribas e Massoretas
Os fatos mostram, portanto, que o entendimento do vocábulo parapipto passa necessariamente por uma análise léxica, mas não pode se limitar a isso. O contexto no qual ele é usado em Hebreus é determinante. O pano de fundo contextual do autor de Hebreus é a Septuaginta grega.[59] É um consenso entre os eruditos que é dessa tradução que o autor extrai a maior parte de suas citações.  A obra Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary destaca que “o verbo usado em Hebreus 6.6, usado somente aqui no Novo Testamento, ocorre em contexto na Septuaginta nos quais a infidelidade está em vista” (e.g. Ez 14.13; 15.8)”.[60] De fato, na tradução dos LXX, parapipto é usado no contexto onde o seu sentido é o de cair em transgressão (parapesein paraptoma, Ez 14.13) e (parapeson paraptomati, Ez 15.8).[61] No contexto dessas passagens bíblicas, Deus promete “eliminar” e “consumir” os que cometeram graves transgressões contra Ele.[62] O julgamento se daria de forma tão dura, que nem mesmo a intercessão de Noé, Daniel e Jó, homens reconhecidos pela sua piedade, poderia reverter a sentença divina (Ez 14.14;20).[63] Os lexicógrafos Jenni e Westermann destacam os vários usos desses termos na versão dos LXX, especialmente o seu  equivalente hebraico mais comum, ma‘al. De acordo com Jenni e Westermann a “Septuaginta emprega mais de uma dúzia de palavras gregas para traduzir ma’al, destacando que os tradutores são consistentes no uso de suas traduções. Ezequiel normalmente usa ma‘al com o sentido de transgredir”.[64] Esse “transgredir” ou “cair em transgressão” de Ezequiel 14.13, onde parapipto é usado, recebe o sentido de apostatar no léxico grego da Septuaginta de Lust-Eynikel-Hauspie.[65] Esse significado de apostasia para o verbo grego parapipto fica mais claro no clássico léxico de Thayer, que o traduziu com o sentido de “cair da verdadeira fé”. [66]  Thayer destacou ainda o fato que em Ezequiel 14.13 e 15.8 a versão dos LXX usou parapipto para traduzir o hebraico ma‘al.
No texto massorético, o vocábulo hebraico ma‘al aparece em vários contextos.[67] O linguista judeu Ernest Klein destacou que, etimologicamente, esse termo vem de uma raiz hebraica cujo sentido é o de “cobrir” e passou a significar “agir infielmente, comportar-se traiçoeiramente”.[68] O léxico hebraico de Schokel destaca os vários sentidos que esse termo assume, por exemplo, traição, infidelidade, deslealdade, felonia, aleivosia, perfídia, rebeldia, delito.[69] O léxico de Koehler & Baumgartner destaca as três dimensões nas quais esse vocábulo é usado: coisas, pessoas e Deus. [70]  Robin Wakely observa que “na maioria esmagadora dos casos, o objeto de ma‘al é Deus. Josué 7.1 é a única passagem em que a referência linguística não é a pessoas ou a Deus (diretamente), mas alguma coisa (proibição), embora essa coisa represente o relacionamento divino-humano”.[71] O sentido de ma‘al, portanto, é usado para especificar os aspectos de uma relação que foi quebrada entre Deus e o homem. Dessa forma o léxico de hebraico bíblico de A.B. Davidson traz como significados, os termos “perversidade, traição, pecado contra Deus”.[72] A natureza negativa desse relacionamento, observa o hebraísta R. Laird Harris, é evidenciada quando o homem comete ofensa contra o Senhor. [73] O dicionário de Vine destaca esse aspecto, que são revelados tanto pelo verbo como pelo substantivo hebraico. “O verbo e o substantivo têm implicações fortemente negativas que o tradutor tem de transmitir (Ez 14.13)”.[74] O exemplo que demonstra isso é a morte de Saul quando este caiu em transgressão contra Deus (1 Cr 10.13). Por outro lado, o hebraísta William Gesenius e os lexicógrafos  F.Brown, S. Driver e C. Briggs destacam as consequências desse agir negativo – um julgamento severo para aqueles que agiram infielmente e traiçoeiramente nas coisas que deveriam ser devotadas a Deus.[75]
Observa-se, portanto, que os termos “cair”, “desviar”, “afastar”, “renegar”, “desertar”, “pecar” e as expressões: “cair em transgressão”, “cometer ofensa contra Deus” e “cair da verdadeira fé”, etc., dentro dos seus respectivos contextos, são perfeitamente entendidas como referências à uma queda ou apostasia, tanto no texto hebraico como no grego do Antigo Testamento.  
  A terceira via
As evidências demonstram inquestionavelmente que o texto de Hebreus descreve uma situação de afastamento, de abandono e queda da fé. Todavia, alguns autores não se dão por satisfeitos com essa direção que o texto conduz. Eles tem procurado uma rota alternativa. O escritor Hal Harless, por exemplo, não crer que o autor esteja falando de uma situação hipotética nem tampouco sobre uma apostasia entre crentes. Harless, que a meu ver produziu uma excelente pesquisa e argumentação sobre o tema, procura evitar a polarização que esse assunto ganhou dentro das duas principais escolas teológicas do protestantismo histórico. Harless, portanto, é um daqueles que está à procura de uma terceira via.
A análise de Harless mostra que o texto está, de fato, se referindo a uma situação real e de verdade entre crentes, todavia não estaria falando de uma apostasia. Segundo ele, o pecado dos hebreus revelaria mais uma situação pecaminosa temporária cometida por crentes imaturos do que uma apostasia. Algo como um tropeço apenas. Ele argumenta que o texto estaria dizendo que enquanto os crentes hebreus continuassem praticando ou participando do sistema levítico de sacrifícios, eles estariam pecando e nessa condição estariam sujeitos a disciplina divina.[76]
Harless argumenta:
“Hebreus 6: 1-9 refere-se aos cristãos que pecam, não que apostatam, ensinando o perigo da imaturidade contínua. Devemos avançar para a maturidade, uma vez que a renovação ao arrependimento é impossível enquanto re-crucificarmos Cristo por retornarmos ao sistema sacrificial do Antigo Testamento. Além disso, o texto ensina um perigo real de disciplina divina para corrigir o nosso pecado e preparar-nos para boas obras. Contudo, Hebreus nunca ameaça os crentes com a ausência ou perda da salvação”. [77]
De acordo com Harless, essa situação mudaria se eles abandonassem aquela prática e voltassem a Cristo. Ele argumenta que tanto no grego clássico como na Septuaginta e também no koiné, o termo parapipto não significaria apostatar, mas somente de pecar, no sentido de desvio ou tropeço. Ele cita alguns exemplos, tanto da literatura bíblica como secular, onde supostamente, ficaria demonstrado esse uso (por exemplo: Et 6.10; 1 Clemente; Josefo e muitos comentaristas modernos). Todavia, Harless pareceu-me seletivo, pois, ignorou ou desqualificou obras léxicas de peso que possuem argumentação diferente da que ele adota, como por exemplo, os clássicos léxicos de Walter Bauer e Joseph Thayer.[78] Harless argumenta que algumas dessas obras, supostamente sem justificativa alguma, traduziram as ocorrências de parapipto na Septuaginta como tendo o sentido de uma apostasia. Segundo ele, deveria prevalecer o sentido de “pecar”. De fato, Harless tem razão quando diz que as ocorrências de parapipto na Septuaginta possuem primeiramente, como vimos, o sentido de cometer transgressão, pecar, falhar ou desviar.[79] Esse fato é facilmente perceptível no léxico de T. Muraoka, que se limita ao uso do vocábulo parapipto na versão dos Setenta.[80] Nesse aspecto, parapipto, nem sempre possui o sentido de apostasia. Todavia, o contexto nunca deve ser perdido de vista. Isso pode ser percebido no léxico grego de Liddell e Scott, que traduziu parapipto em Hb 6.6 como “cair” (fall away), e o termo grego apostasia em 2 Ts 2.3, com o sentido de uma rebelião contra Deus, uma apostasia[81]. Já ficou demonstrado aqui que apostasia (2 Ts 2.3) deriva de aphistemi, e é também traduzido como “cair” (fall away) em Hb 3.12 (veja Bauer). Em outras palavras, parapipto (Hb 6.6) e apostasia (Hb 3.12) são termos que aparecem como sinônimos no contexto neotestamentário de Hebreus.[82]
Dentro da hermenêutica bíblica as análises léxica-gramatical são fundamentais, todavia, o juiz de qualquer princípio léxico-gramatical é o contexto.[83] O expositor B. John B. Taylor, comentando Ezequiel 14.13 destaca que o significado do verbo Hebraico usado aqui é “agir traiçoeiramente” na quebra de uma aliança solene. Nesse aspecto ele lembra que “é empregado para o pecado de Acã com relação as coisas condenadas (o herem, Js 7.1) e ao ato adultero de uma esposa (Nm 5.12), sendo que os dois incorriam na pena de morte. O significado aqui diz respeito, de modo semelhante, a um pais que pela sua infidelidade merece o castigo máximo”.[84] Que “grave transgressão” era essa que merecia a pena máxima? Os hebraístas Keil e Delitzsch, no clássico Commentary on the Old Testament, afirmam tratar-se da apostasia. Esses autores destacam que em Ezequiel 14.13, o vocábulo hebraico “ma‘al”, que nessa passagem foi traduzido por parapipto na Septuaginta, possui inquestionavelmente o sentido de apostasia. Eles observam que ali esse termo significa, literalmente:
“Cobrir, significando agir de maneira secreta ou traiçoeira, ou reter o que lhe é devido. Na passagem diante de nós é a traição da apostasia contra Deus através da idolatria praticada”.[85]
O contexto, portanto, é determinante para que se tenha uma tradução apropriada e também se a referência é usada em relação a Deus. Mesmo sendo usada em relação a Deus, o contexto é quem determinará se se trata de uma apostasia ou não.[86] Quando me refiro ao contexto aqui, não o limito apenas ao Antigo Testamento, mas também ao Novo Testamento, que é uma interpretação fidedigna daquele. Quando se observa os contextos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, fica bastante claro que as expressões cometer transgressão, cair em transgressão, que ocorrem em Ezequiel 14.13; 15.8, e caíram, Hb 6.6, possuem o sentido de cair da verdadeira fé. Os léxicos, portanto, corretamente traduziram parapipto como apostasia e a associaram a Hebreus 6.6, onde esse vocábulo possui o mesmo sentido.[87] Em Hebreus, sem sombra dúvida, o seu sentido é de uma queda da fé, contudo, sem oportunidade de retorno! De fato, o Léxico Grego-Português do Novo Testamento Baseado em Domínios Semânticos, dos autores Johannes Louw e Eugene Nida, deu a seguinte definição para parapipto:
“Abandonar um relacionamento ou uma associação que se tinha anteriormente ou dissociar-se (um tipo de reversão do ato de começar a associar-se) – “afastar-se, cair, abandonar”. Parapesontas, palin anakainizein eis metanoian, “depois que caíram, (é impossível) trazê-los de volta a um novo arrependimento (Hb 6.6)”.[88]
 Etimologicamente, portanto, as evidências semânticas e contextuais demonstram uma queda da fé sem oportunidade de arrependimento. Esses fatos acabam implodindo a tese de uma “queda temporária” como quer Harless e, sem dúvida alguma, desestrutura também o “pecar sem apostatar” como sugere Michaelis. De acordo com Michaelis, de quem Harless se aproxima muito, os exemplos da ocorrência de parapipto, tanto na LXX como no NT, mostrariam que o que está em questão é a culpa de um erro ou pecado e não de uma apostasia. De acordo com ele, embora o significado de parapipto tenha sido traduzido como “cair", no sentido de apostatar, como indica Hb 3.12, onde o verbo apostenai é tomado como sinônimo, todavia argumenta ser mais apropriado traduzi-lo como "ofender", "pecar" em vez de “apostatar” como o faz a Septuaginta.[89] Em palavras mais simples, o que o autor de Hebreus estaria descrevendo é um “pecar sem apostatar”. A suposta razão que justificaria esse entendimento, argumenta Michaelis, é que em Hebreus não há uma referência clara a uma ofensa específica.
A fraqueza dessa tese, como já ficou demonstrada, é que ela semanticamente imprecisa e vai em direção contraria aquilo que diz o contexto de Hebreus. A exortação do autor é exatamente no sentido de que quem voltasse atrás, naquilo que o autor estava advertindo, não teria mais como voltar. “O autor de Hebreus”, destaca o Dicionário Bíblico Tyndale, “referiu-se aos que haviam crido e então abandonado a fé como estando em uma situação sem esperança – sem nenhuma possibilidade de arrependimento futuro (6.1-6)”.[90] Não há aqui uma ideia de uma “pecar sem apostatar” nem tampouco de uma “queda temporária”. Deve-se observar ainda que a argumentação de Michaelis, à semelhança de Harless, esbarra no contexto da tradução dos LXX em Ezequiel 14.13 e 15.8 e de Hebreus 6.4-6; 10.29. O contexto dessas passagens mostra, que mesmo trocando “apostasia” por “pecado”, o sentido é o de um “voltar atrás” ou de uma queda. À luz do contexto de Hebreus, tanto faz “pecar” como “apostatar”, quando o que de fato está em relevo é o perigo de cair da graça de uma forma definitiva e não apenas temporária. Observa-se também que a tese do “pecar sem apostatar” é falha por subjetivar demasiadamente os pecados citados, tanto na versão dos LXX como na carta aos Hebreus. O autor de Hebreus mostra uma exortação específica, objetiva e enfática, não somente nos textos de 3.12; 6.6; mas também em 10.29: “E quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do pacto, com que foi santificado, e ultrajar ao Espírito da graça?” Nesses textos, portanto, o pecado é tratado de forma concreta e não subjetivamente.
Á luz do contexto de Hebreus, especialmente em relação as referências do profeta Ezequiel, é sensato concluir que a apostasia, como uma queda da verdadeira fé, era a imagem que o autor de Hebreus tinha em mente quando redigiu seu texto.[91] O uso do mesmo termo grego, parapipto, tanto pelo profeta Ezequiel (14.13; 15.8) como pelo autor de Hebreus (6.6), postos em contextos onde a falta de fidelidade está em evidência, deixa esse fato em relevo. Ezequiel denuncia a idolatria como um cair em pecado, um abandono de Deus e uma grave transgressão contra o Senhor. Enfim, uma queda da fé e, sem dúvida alguma, como observaram Keil e Delitzsch, uma apostasia. É exatamente sobre o perigo da apostasia que também o autor de Hebreus está preocupado. Ele adverte seus leitores sobre os perigos de se desviar (Hb 3.12); de cair da fé verdadeira (Hb 6.6) e de ser submetido a um juízo severo (Hb 10.26-29). É relevante o fato que o autor usa a palavra grega apostasia em Hb 3.12 para advertir seus leitores sobre o perigo da queda da fé. Seria ilógico imaginar que em Hb 3.12 o autor estivesse se referindo à apostasia, como de fato está, e em Hb 6.4-6 e 10.29, onde a exortação é, sem sombra de dúvidas, muito mais severa que em Hb 3.12, ele estivesse tratando de algo menos grave.
Dando voz à gramática
Gramaticalmente, como particípio aoristo, parapipto (parapesontas), que ocorre em Hebreus 6.6, mantém o sentido de: tendo caído de uma forma completa ou definitiva.[92] R.T. Kendall, mesmo crendo na perseverança dos santos, foi fiel ao texto e deu tradução semelhante, justificando: “parapesontas é um particípio aoristo, que é traduzido como “caíram’ ou ‘tendo caído’. Sua queda foi um fato”.[93] Grant Osborne destaca que “praticamente todos os comentaristas recentes admitem que isto deve ser apostasia final, a rejeição absoluta de cristo”.[94] O biblista F.F. Bruce ao comentar Hb 6.4-6 destaca que o contexto é determinante para uma compreensão correta do sentido de parapesontas nessa passagem bíblica. Em posição oposta à que é defendida por Wiersbe, Bruce observa que “não é o seu significado radical, senão seu contexto o que indica que se refere aqui a apostasia – o mesmo pecado expressado por apostenai (apostasia) no capítulo 3.12”.[95] Esse também é o entendimento que se observa na redação da obra A Reader’s Greek New Testament, que traduziu apostenai (Hb 3.12) como “desviar”, “cair”, “rebelar” e parapesontas (Hb 6.6) como “cair”, “apostatar”.[96]
O “se” ausente
Esse tom exortativo e vigoroso de Hebreus 6, como vimos, tem soado demasiadamente forte para alguns intérpretes. Isso tem feito com que alguns deles a tentarem de todas as formas suavizá-lo.  Uma dessas tentativas é achar um sentido condicional para o particípio grego parapesontas, e também a inserção da partícula condicional “se” (se caírem) no texto para amenizar o sentido desse verbo.[97] O escritor Kenneth Wuest argumenta, sem evidência textual nenhuma, que no texto existe "um particípio condicional, um caso hipotético apresentado”.[98] Todavia, essa é uma excrescência que não conta com o apoio da crítica textual. O aparato crítico de Bruce M. Metzger não traz variante textual alguma sobre esse suposto “se”.[99] A The NKJV Study Bible, editada por Earl D. Radmacher, destaca que “alguns traduzem este verbo na condicional. A ausência da forma condicional no texto grego constitui um argumento contra a interpretação “hipotética” desta passagem (v.4). Recair se refere aqui a uma apostasia deliberada (3.12), uma deserção da fé”.[100]
O reformador Theodoro Beza (1519-1605), sucessor de João Calvino, introduziu arbitrariamente no texto a condicional “se”, que não aparece no original, para tentar forçar o texto a se ajustar à sua forma de crer. Na sua versão do Novo Testamento em latim, lemos: “Si prolabantur, denuo renoventur ad resipiscentiam; ut qui rursum crucifigant sibi Filium Dei, et ignominiae exponant”.[101] Posteriormente tanto Adam Clarke como Mcnight, teólogo reformado, criticaram Beza por essa interpolação.[102] Mcnight destacou que “os tradutores para a língua inglesa, seguindo Beza, o qual, sem autoridade nenhuma de manuscritos antigos, inseriu em sua versão a partícula se, traduziram esta expressão como se eles caírem, para não parecer que o texto contradizia a doutrina da perseverança dos santos. Como, porém, nenhum tradutor deveria tomar a si o adicionar ou alterar as Escrituras, por causa de qualquer doutrina predileta, traduzi parapesontas no passado, tendo caído, segundo o verdadeiro significado da palavra”.[103]
Em anos passados, Charles Spurgeon (1834-1892), o príncipe dos pregadores, foi induzido ao erro ao valer-se desse “se” para justificar que o texto falava de uma situação hipotética.[104] O escritor R.T. Kendall destacou que “Charles. H. Spurgeon acreditava que aqueles descritos em Hebreus 6.4-6 eram obviamente salvos, mas a situação apresentada era hipotética. Spurgeon construiu toda a sua tese na pequena palavra “se” - "se eles caírem" (Hebreus 6.6). Spurgeon afirmou que isso ainda não tinha acontecido. Infelizmente, Spurgeon não conhecia grego e ele não sabia que não há “se” no grego, em absoluto”.[105]
Uma tradução equivocada
Essa interpolação, que tem gerado esse equívoco exegético, ainda hoje está presente em algumas traduções da Bíblia. A conceituada Bíblia Nova Versão Internacional em sua edição em inglês colocou esse “se” inexistente no texto de Hb 6.6: “If they fall away, to be brought back to repentance, becouse to their loss they are crucifying the Son fo God all over again and subjecting him public disgrace”.[106] Em tempo mais recente, Dave Hunt (1926-2013), considerado um dos maiores apologistas evangélico, também à semelhança de Spurgeon, se valeu desse “se”, que nunca existiu, para justificar uma suposta segurança incondicional do crente.[107] Hunt escreveu: “Claramente aqueles a quem esta passagem se refere são crentes genuínos. Além disso, não diz "quando eles caírem", mas "se eles caírem".[108] O biblista Grant Osborne, respeitado hermeneuta contemporâneo, criticou a Nova Versão Internacional por fazer essa interpolação da partícula “se” no texto, forçando o versículo a possuir um sentido condicionante (Se eles caírem). Osborne observa que: “A NIV está errada em traduzir o particípio paralelo final como “se eles caírem”.[109] Osborne ainda observa que posteriormente os revisores americanos (não aparece na NVI em português) retiraram do texto essa partícula, mas a colocaram estrategicamente em uma nota de rodapé.
Seguindo a análise de J.A. Sproule e Daniel B. Wallace sobre o uso do particípio aoristo parapesontas em Hb 6.6, Hal Harless observa, acertadamente, que: “Uma condicional de segunda classe tornaria isso claro, mas no grego não há nenhuma condição em absoluto. O texto tem um particípio adjetival de parapiptō ("caíram, Hebreus 6: 6). Este particípio não pode ser condicional, já que seu artigo de controle o torna adjetival ao invés de adverbial”.[110] De fato, o gramático Daniel B. Wallace argumenta contra a condicionalidade do particípio grego parapesontas em Hb 6.6, destacando que essa suposta condicionalidade é uma suposição sem provas. Dessa forma, Wallace observa que Hb 6.6 deve ser traduzido como:
“É impossível restabelecer novamente ao arrependimento esses que foram uma vez iluminados...e caíram”.[111]
Firmes em Cristo, mas sempre alerta!
Como disse no início deste texto, o autor de Hebreus quer ver em seus leitores ânimo, esperança e fé em tempo de apostasia. Ele tem convicções espirituais fortes, mas não via essa mesma convicção em seus leitores. Foi preciso que ele desse um tratamento de choque, um grito de alerta para acordar seus leitores. Mas ao fazer isso ele não estava encenando. A queda da fé era uma possiblidade a ser considerada com toda seriedade.
Consciente de que fora duro em sua exortação, ele lhes dar uma palavra de ânimo:  
“Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos” (Hb 6.9).
Alguns comentaristas se apegam ferrenhamente a esse texto como uma última tentativa para negar a possibilidade do fracasso espiritual relatado em Hb 6.4-6. Argumentam que aqui estaria a prova de que tudo que o autor descreveu sobre a queda na fé não passa de uma mera suposição. Mas se esse fosse o caso, como já destacou Leon Morris em outros termos, tudo o que o autor usou como alerta para seus leitores até aqui não passava de encenação e todas as advertências se resumiriam a uma farsa. Mas o texto está longe disso. O autor não está levantando hipótese alguma, mas tratando de uma realidade extremamente séria – o perigo de cair da graça. Grant Osborne, in loco, observa que essas palavras do autor de Hebreus “não justifica uma visão hipotética da apostasia, como se o perigo fosse afirmado apenas como um meio de estimulá-los a perseverar, mas que nunca poderia acontecer. O perigo é muito real, mas o autor os encoraja com uma declaração positiva sobre a sua verdadeira posição em relação a Cristo”.[112]
A salvação é pela graça, mas não é compulsória
Depois dessa análise exegética, duas coisas ficam em relevo.
Em primeiro lugar, a teoria que tentou converter o texto de Hebreus 6.4-6 em um caso meramente “hipotético” não se sustenta. Para se firmar, essa teoria passou a depender de uma obra de engenharia teológica muito grande, edificando-se sobre fundamentos léxicos e gramaticais inexistentes no texto. Sua principal coluna de sustentação, uma suposta condicionalidade do texto, foi demolida pela redação original do Novo Testamento. Por outro lado, aqueles que defendem que o texto está se referindo a “réprobos” não conseguem explicar porque esse “não-salvo”, que nunca foi regenerado e que permanece nos seus delitos e pecados tenha tido os mesmos privilégios que é reservado exclusivamente aos salvos. Por quê Deus permitiria a esse “não-salvo” receber da parte dele “iluminação”, “provar do dom celestial”, “participar do Espírito Santo” e “experimentar a palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” para logo em seguida ter que jogá-lo no inferno? Da mesma forma a tese que tenta “retirar” a apostasia do texto de Hb 6.4-6 enfrenta problemas contextuais e semânticos insuperáveis. A própria carta aos Hebreus usa esse termo apostasia em Hb 3.12 e os eruditos destacam que o termo grego parapipto usado em Hb 6.4-6 deve ser visto como sinônimo de apostasia que ocorre em Hb 3.12 (veja Bruce). Da mesma forma, não há como negar que Hb 10.26-29 é uma referência clara aquilo que o autor descreveu em Hb 3.12 e 6.4-6, isto é, a queda da fé. De fato, Richard C. Trench em seu clássico Synonyms of the New Testament destaca que Hb 6.6 “é equivalente ao ekousiôs hamartánein de 10.26, ao apostenai apo Theou zontos de 3.12”.[113]
Em segundo lugar, convém destacar que a linguagem sobre a segurança do crente encontrada em Hebreus não destoa daquela encontrada em outras Escrituras do Novo Testamento. A salvação é pela graça, mas não é compulsória. Somos eleitos no Filho de Deus, mas cabe a nós respondermos à obra santificadora do Espírito Santo (Ef 4.30). A nossa salvação está condicionada a nossa obediência e permanência em Cristo (Cl 2.6). Quem está em Cristo está seguro da vida eterna (1 Jo 1.7; 2.24,28). Mas não há segurança alguma para quem dele se afasta. É esse o testemunho do autor de Hebreus e dos apóstolos: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça decaístes” (Gl 5.4). Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo pleno conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, ficam de novo envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior que o primeiro. Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado. Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro; Volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal” (2 Pe 2.20-22).
Esses fatos estão sintetizados na Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, que diz:
“Rejeitamos a afirmação segundo a qual “uma vez salvo, salvo para sempre”, pois entendemos à luz das Sagradas Escrituras que, depois de experimentar o milagre do novo nascimento, o crente tem a responsabilidade de zelar pela manutenção da salvação a ele oferecida gratuitamente: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.12). Não há dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação, seja temporariamente ou eternamente. Mediante o mau uso do livre arbítrio, o crente pode apostatar da fé, perdendo, então, a sua salvação: “Mas, desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo a iniquidade, fazendo conforme todas as abominações que faz o ímpio, porventura viverá? De todas as justiças que tiver feito não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu, e no seu pecado com que pecou, neles morrerá” (Ez 18.24). Finalmente temos a advertência de Paulo aos coríntios: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Co 10, 12). Aqui temos mencionada a real possibilidade de uma queda da graça. Assim, cremos que, embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada e confirmada”.[114]

    Notas bibliográficas




[1] SCOLNIK, Fred. Enciclopaedia Judaica, vol.2,.p.269. macmillan Reference, New York, USA, 2007.
[2] SAKENFELD, Katharine Doob. The New Interpreter’s Dictionary of the Bible, vol.1. Abingdon Press, Nashville, USA.
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[7] BAUER, Walter. A Greek-English Lexicon Of The New Testament And Other Early Christian Literature. The University of Chicago Press, Chicago. USA.
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[11] LAUBACH, Fritz. Hebreus – comentário esperança. Editora Esperança, pp. 101
[12] MARSHAL, I. Howard.  Novo Dicionário de Teologia. Ed. Hagnos.
[13] Dicionário Teológico Beacon. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, USA.
[14] CLARKE, Adam. Hebreos- Comentario de la Santa Biblia – Nuevo Testamento, tomo III. Casa Nazarena, Lenexa, USA.
[15] MARSHAL, I. Howard. Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã. Editora Cultura Cristã. Cambuci, São Paulo, 2008.
[16] Variantes dessas interpretações são apresentadas no Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 1. É uma hipótese que os autores bíblicos levantaram, mas não uma real possibilidade; 2. “cair” implica numa perda de galardão (cf. 1 Co 3.12-15) e não na perda da salvação; 3. Os que caem nunca foram cristãos realmente, eram apenas “crentes nominais”; 4. Tais passagens sobre o “cair” devem ser vistas à luz de duas perspectivas, a divina e a humana. Do lado divino, “uma vez salvo, sempre salvo”, do lado humano, porém, a “salvação” pode ser apenas aparente, apesar da sinceridade e consagração anteriores daqueles que um dia caíram. E uma quinta interpretação que é defendida pelos editores dessa obra: 5. “Cair” [é] a negação deliberada do evangelho, com a consequente perda da salvação. (p.265. Editora Vida Nova, São Paulo).
[17] GUTRHIE, Donald. Teologia do Novo Testamento, Cultura Cristã, 2011
[18] ERICKSON, Milard J. Teologia Sistemática, Vida Nova, 2015
[19] MORRIS, Leon. The Expositor’s Bible Commentary – Hebrews through Revelation, vol. 12. Zondervan, Grand Rapids, USA, 1981.
[20] PFEIFFER, Charles F. Hebreos. Editorial Porta Voz, Grand Rapids, Michigan. USA).   
[21] BARNES, Albert. Barne’s Notes on the New Testament – complete in one volume. Kregel Publications. Grand Rapids, Michigan, USA. 
[22] GRUDEM, Wayne. Perseverance of the Saintes – a case study from Hebrews 6.4-6 and the other warning passages of Hebrews. Vol. I, pp.133-182. Baker, Grand Rapids, 1995. 
[23] MACARTHUR, John. Hebreus – Cristo, sacrifício perfeito, perfeito sacerdote. Editora Cultura Cristã. Grifo meu).
[24] VOLF-GUNDRY, J.M. in APOSTASIA – Dicionário de Paulo e Suas Cartas, pp.114-120. Editora Paulus.
[25] WUEST, Kenneth. Joias do Novo Testamento Grego.Ed. Imprensa Batista Regular e Hebrews Six in the Greek Testament. BilbSac 119).
[26] O apologista norte-americano, Dave Hunt, é dogmático em afirmar que Armínio negava a possibilidade de “que a salvação pode ser perdida” (HUNT, Dave. Que Amor é Este? – a falsa representação de Deus no Calvinismo. Editora Reflexão). Por outro lado, o teólogo e historiador, Roger Olson, destaca que que tanto Jacó Armínio como seus sucessores, os Remonstrantes, “deixaram em aberto a questão da segurança eterna dos santos. Ou seja, eles deixaram em aberto a questão se uma pessoa verdadeiramente salva poderia cair ou não da graça” (OSLSON, Roger E. Teologia Arminiana – Mitos e Realidades. Editora Reflexão). Essa ambiguidade deriva do pensamento de Armínio não ser conclusivo sobre esse assunto (Ele morreu muito jovem, aos 49 anos, portanto, antes de ter sistematizado seu pensamento). Suas palavras foram: “Embora eu afirme aberta e francamente aqui que eu nunca ensinei que o verdadeiro crente pode, seja total ou finalmente apostatar da fé e perecer, não quero ocultar que existem passagens da Escritura que me parecem apoiar esse aspecto” (ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. CPAD, Rio de Janeiro). Em relação a Hb 6.4,5, Armínio cria tratar-se de não regenerados (Obras, p.245). Essa mesma ambiguidade também pode ser vista em Adam Clarke, que também acreditava que a passagem de Hebreus 6.4-6 não se aplicava às pessoas que haviam professado o cristianismo nem tampouco aos desviados, mas aos apóstatas. Todavia, no texto paralelo de Hb 10.26-29, Clarke admite que esse apóstata é alguém que “depois de haver sido salvo pela graça ou convencido da verdade do evangelho”, deliberadamente apostatou (CLARKE, Adam. Hebreos: Comentario de La Santa Bíblia – Nuevo Testamento, tomo III. Casa Nazarena de Publicaciones).   
[27] CALVINO, John. Hebreus – série comentários bíblicos. Editora Fiel. São José dos Campos, São Paulo. 
[28] PARKER, Jorge. Lexico-Concordancia del Nuevo testamento em Griego y Español. Editorial Mundo Hispano, El Paso, Texas, USA.
[29] TAYLOR, Richard S. Hebreus - Comentário Bíblico Beacon. Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro, RJ.
[30] WESLEY, John. Hebrews – Explanatory Notes & Commentary. Bristol Hot-Wells, 1754.
[31] MARSHAL, I. Howard. Kept by the Power of God: A Study of Perseverance and Falling Away. Wipif & Stock Publisher. Eugene, Oregon, USA, 2007.
[32] ROBERTSON, A.T. Hebreos - Comentario al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
[33] LIGHTFOOT, Neil R. Hebreus – Jesus Cristo Hoje. Editora Vida Cristã. Rio de Janeiro.
[34] KENDRICK, A.C. Epistle to Hebrews. American Baptist Publication Society. Philadelphia, USA.
[35] HAWTHORNE, Gerald F. Comentário Bíblico NVI. Editora Vida.
[36] MORRIS, Leon. The Expositor’s Biblie Commentary, 12 vol. Zondervan, Grand Rapids, Michigan, USA.
[37] Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento. Editora Paulus.
[38] LANE, William. Hebrews, 2 vols., World Biblical Commentary, Thomas Nelson, 1991.
[39] C. Spiq definiu os apóstatas como sendo pessoas que “crucificam o Filho de Deus por sua própria conta e ridicularizam-no publicamente” (Theological Lexicon of the New Testament. Vol.3. Zondervan Publishers, USA, 2012).
[40] CLAPP, Philip S. Analytical Concordance of the Greek New Testament, vol. 1 – Lexical Focus. Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, USA.
[41] STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos.
[42] Bruce argumenta que ausência do artigo grego aqui, faz com que a referência seja aos “dons do Espírito” em vez de ser à própria pessoa do Espírito Santo. Muitos intérpretes usam essa regra para dizer que o apóstata teve apenas uma “influência do Espírito” em vez de participar do Espírito mesmo. Essa é uma falácia gramatical, inclusive muito usada pelas Testemunhas de Jeová para dizerem que o Espírito Santo é apenas uma força de Deus. Os nomes próprios podem vier acompanhado ou não do artigo. Sendo um nome próprio, como o é o nome “Deus”, “João”, “Paulo”, etc., a palavra “Espírito Santo” pode vir com ou sem artigo (Jo 1.6; 1.15; Rm 1.1) . Veja uma exposição completa no livro de minha autoria: Defendendo o Verdadeiro Evangelho (CPAD, 2009) e na obra de W.E. Vine: Dicionario Expositivo de Palabras del Nuevo Testamento, 4 tomos, edição em espanhol. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha. 
[43] BRUCE, F.F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan, USA. 
[44] Eusébio de Cesareia diz em sua História Eclesiástica que Simão, o Mago, foi para Roma e lá teria pervertido a fé de muitos (CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica. Casa Publicadora das Assembleias de Deus). O Testemunho de Eusébio é tardio e sujeito a questionamento, da mesma forma que o é também seu registro de que Pedro foi martirizado em Roma, sendo sucedido no episcopado por Lino.
[45] RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Editora Vida Nova.
[46] TRENTHAN, Charles A. Hebreus – comentário bíblico Broadman. JUERP.
[47] CLARKE, Adam. Commentary on the Epistle to the Hebrews. Conforme citado por Orton Wiley. 
[48] WIERSBE, W.W. Hebreus – comentário expositivo do Novo Testamento. Editora Central Gospel. Rio de Janeiro, RJ.
[49] MOULTON, Harold K. The Analytical Greek Lexicon Revised. Regency Library. Grand Rapids, Michigan, USA.
[50] SMITH-ABBOTT, G. A Manual Greek Lexicon of The Greek New Testament. Charles Scribner’s Sons. New York, USA, 1922.
[51] BULLINGER, Ethelbert W.  A Critical Lexicon and Conccordance to the English and Greek New Testament. Zondervan Publishing House. Grand Rapids, Michigan, USA, 1975.
[52] LIDDELL, Henry George & SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon. Claredon Press, Oxford, England, 1996.
[53] HUABECK, Wilfrid. Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Ed. Hagnos.
[54] FRIBERG, Timothy and FRIBERG, Barbara. Analytical Greek Lexixon.  BibleWorks, Norfolk, VA, USA.
[55] Idem.
[56] BibleWorks, Norfolk, VA, USA.
[57] BAUER, Walter. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. The University of Chicago, USA.  
[58] MOUNCE, William D. Léxico Analítico do Novo Testamento Grego. Editora Vida Nova).
[59] Septuaginta – Duo Volumina in uno. Deutsche Bibelgesellschaft Stutgart, Germany, 1979.
[60] ARNOLD, Clinton E. Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary. Zondervan, Grand Rapids, Michigan., USA.
[61] TAYLOR, Bernhard.  The Analytical Lexicon to the Septuagint. Zondervan Publishing House, Grand Rapids, Michigan, USA. O Segundo termo, paraptoma, que ocorre nestes versículos, também ocorre 19 vezes no NT e de acordo com R.C. Trench pode ser traduzido como “ignorância do que deveria ser conhecido”. Todavia, os léxicos geralmente traduzem como “pecado, passo em falso e transgressão” (veja TRENCH, R.C. Synonymus of The New Testament. Kegan Paul & Co. London, 1894; GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. Editora Vida Nova, São Paulo).
[62] Na Septuaginta (285 a.C), além das duas passagens citadas aqui, esse vocábulo ocorre outras quatros vezes. Uma vez em Ester 6.10 e outras três vezes em Ezequiel: 18.24; 20.27 e 22.4 (MORRISH, George. A Concordance of the Septuagint, p.185. Regency Library. Zondervan Publishing House, Grand Rapids, Michigan, USA, 1976).
[63] HATCH, Edwin & REDPTH, Henry A. A Concordance To The Septuagint – And the Others Greek of the Old Testament Versions, vol. 2. Claredon Press, Oxford, UK, 1897.
[64] JENNI, Ernest & WESTERMANN, Claus. Theological Lexicon of the Old Testament, vol. 2. Hendrickson Publishers. Peabody, Massachssetts, USA, 2004.
[65] LUST-EINIKEL-HAUSPIE. A Greek-English Lexicon of the Septuagint. BibleWorks, Norfolk, VA, USA.
[66] THAYER, Joseph. Greek-English Lexicon of the New Testament. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, USA.
[67] WINGRAM, George. The Englishman’s Hebrew Concordance of the Old Testament. Hendrickson Publishers.Peabody, Massachusetts, USA, 2009.
[68] KLEIN, Ernest. A Compreensive Etymological Dictionary of the Hebrew Language for Readers of English. CARTA, Jerusalém, Israel, 1987.
[69] SCHOKEL, Alonso Luis. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. Editora Paulus, São Paulo, 1997.
[70] KOEHLER, Ludwig & BAUMGARRTNER, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2 vol. Brill, Leiden, 2001.
[71] WAKELY, Robin in Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, vol.2. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2011.
[72] DAVIDSON, A.B. The Analytical Hebrew and Chaldee Lexicon. Regency Reference Library. Grand Rapids, Michigan, USA.
[73] HARRIS, R. Laird. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova.
[74] VINE, W.E; UNGER, Merril F; WHITE JR, William. Dicionário Vine – o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e Novo Testamento. CPAD, 2009.
[75] GESENIUS, William. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, USA, 1993; BROWN, F & DRIVE, S. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Hendrickson Publishers. Peabody, Massachusetts, USA, 2010.
[76] De certa forma, nesse aspecto, o argumento de Harless se aproxima aqui de Kenneth Wuest que argumenta que ninguém hoje pode apostatar porque não existe mais templo nem sacrifícios. F.F. Bruce, argumentando contra Wuest, demonstrou em seu comentário de Hebreus que essa é uma tese inconsistente (BRUCE, F.F. La Epistola a los Hebreos.  Libros Desafio).   
[77] HARLESS, Hal. Fallen Away or Fallen Down? – The meaning of Hebrews 6.1-9.  Chafer Theological Seminary.
[78] Não são apenas os léxicos de Bauer e Thayer que traduzem parapipto com o sentido de apostasia; outros léxicos também o fazem, como exemplo, Friberg; Rusconi; Gingrich; Barclay e Newman e Lust-Eynikel-Hauspie.
[79] A linguística nos mostra que as palavras não possuem sentido fora dos seus contextos e que elas podem assumir posteriormente um outro significado diferentemente daquele que possuía originalmente. Exemplos são vistos no Novo Testamento. No grego clássico a palavra daimonion era usado em relação aos espíritos dos mortos. Todavia, no Novo Testamento tem o sentido de um ser espiritual maligno. A palavra grega apóstolos, etimologicamente deriva de apostéllô, com o sentido de envio. Nos papiros antigos apóstolos era usado em referência a um “navio graneleiro” enviado em uma viagem comercial, todavia no Novo Testamento é usada para se referir a uma pessoa enviada em uma missão (CHAMBERLAIN, William. Gramática Exegética do Novo Testamento Grego. Cultura Cristãs, São Paulo, 1989). É temerário, portanto, restringir ou forçar o uso de parapipto somente ao seu sentido do grego clássico e ignorar aquilo que o contexto do Novo Testamento lhe atribui.
[80] MURAOKA, T. A Greek-English Lexicon of the Septuagint. Walpole, MA, USA, 2009.
[81] LIDDELL, Henry George & SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon. Claredon Press, Oxford, England, 1996.
[82] Esse fato é claramente perceptível quando observamos o uso de aphistemi, tanto na Septuaginta como no Novo Testamento. Na versão dos LXX a grande maioria das ocorrências de aphistemi não tem relação com a apostasia. Todavia, em muitos casos, o sentido de apostasia fica evidente, como, por exemplo, Dt 7.4; Jz 2.19; 2 Rs 10.29,31; Ez 6.9; 20.8; 23.17. Da mesma forma, o termo aphistemi, usado no Novo Testamento com o sentido claro de apostasia em 1 Tm 4.1 e Hb 3.12, na grande maioria dos textos não possui essa significação. Em palavras mais simples, as palavras não possuem significação independente do contexto em que se encontram (para um estudo da ocorrência dessa palavra tanto no AT como no NT, veja as obras de George Morrish: A Concordance of the Septuagint e a Concordancia Greco-Española del Nuevo Testamento de Hugo M. Petter).
[83] HANA, Roberto. Ayda Gramatical Para El Estudio Del Nuevo Testamento Griego.
[84] TAYLOR, John B. Ezequiel – introdução e comentário. Editora Cultura Cristã.
[85] KEIL, C.F. & DELITZSCH, F. Commentary on the Old Testament, vol.9. Hendrickson Publishers. Peabody, Massachusetts, USA, 2006.
[86] Ma‘al, por exemplo, é usado com o sentido de pecar contra o Senhor em Deuteronômio 32.51. Essa passagem é uma referência ao incidente de Cades, no deserto de Zim, quando Moisés feriu a Rocha. Ma‘al aqui possui o sentido de pecado, transgressão ou mesmo rebelião, mas não está em vista uma apostasia.   
[87] O léxico de Robinson deu como sentidos de parapipto: apartar-se, apostatar (Hb 6.6)”. Robinson destaca que esse termo traduz o hebraico ma’al em Ezequiel 18.24 e 20.27. (ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. Editora CPAD. Por outro lado, James Hope Mouton e George Milligan destacam que o uso desse verbo no P OXY I. 95, cerca de 129 d.C., usado em referência a um contrato que deve ser anulado por haver sido quebrado, dá sustentação ao sinistro sentido encontrado em Hb 6.6 (MOUTON, James Hope & MILLIGAN, George. The Vocabulary of the Greek Testament – ilustrated from the papyri and other the non-literary sources. Hodder and  Stoughton, London, England).
[88] LOUW, Johannes & NIDA, Eugene. Léxico Grego-Português do Novo Testamento – baseado em domínios semânticos. Sociedade Bíblica do Brasil.
[89] KITTEL, Gerhard. Theological Dictionary of the New Testament, vol.VI, pp.170,171. Eerdmans Publishing Company. Grand Rapids, Michigan, USA.
[90] COMFORT, Philip W. & Elwell, Walter. Dicionário Bíblico Tyndale. Geográfica Editora, Santo André, São Paulo, 2015.
[91] RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. Editora Paulus, São Paulo, 2005.
[92] A afirmação de Norman Geisler de que parapesontas não indica uma ação sem retorno em Hb 6.6, mas sim um “desviar-se do rumo”, no sentido de que o autor de Hebreus não estaria se referindo a uma situação desesperadora, é carente de fundamentação léxica e semântica. Além desse fato, o contexto mostra claramente que o autor de Hebreus vincula o “cair” (Parapsontas) à “impossibilidade de um novo arrependimento”, o que acaba por esvaziar o argumento de Geisler (veja GEISLER, Norman & HOWE, Thomas. Biblia de Estudo Perguntas e Respostas. Editora Mundo Cristão. São Paulo, 2016).
[93] KENDALL, R.T. Once Saved, Always Saved. Moody Press, Chicago,1985.
[94] OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Publications. Grand Rapids, Michigan, USA.
[95] BRUCE, F.F. La Epistola a Los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan USA.
[96] GOODRICH, Richard J. & LUKASZEWSKI, Albert L. A Reader’s Greek New Testament. Zondervan. Grand Rapids, Michigan, USA, 2007.
[97] Sobre o particípio condicional grego a obra Syntax of New Testament Greek diz: “Este tipo de particípio funciona como a prótase de uma sentença condicional. É traduzido pela palavra "se". O particípio indica uma condição que deve ser cumprida antes que a ação do verbo principal possa ocorrer” (BROOKS, James A. & WINBERY, Carlton L. Syntax of New Testament Greek. University Press of America. Lanham, Maryland, USA, 1998). Essa mesma obra cita como exemplos: Hb 2.3; Fl 1.27; Gl 6.9; Lc 9.25; 1 Tm 4.4, mas não Hebreus 6.6. Veja um estudo detalhado sobre o uso do aoristo e do particípio aoristo nas obras de A.T. Robertson e H.E Dana e Julius Mantey. Esses autores citam alguns casos onde o contexto permite ver condicionalidade no uso do particípio grego e mostram como exemplos Lc 19.23; At 15.29 e (ambos citam Hb 2.3). Robertson diz que em alguns textos é difícil precisar essa condicionalidade e cita Mouton que nega, por exemplo, a existência no Novo Testamento de particípio condicional de segunda classe (condição irreal). Todavia nenhum desses gramáticos citam nessas obras como exemplo de particípio condicional o texto de Hb 6.6 (ROBERTOSN, A.T. A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research, pp.824; 1129. Broadman Press, Nashville, Tenessee, USA e Gramática Griega Del Nuevo Testamento, pp 227. H.E. DANA e Julius R. Mantey. Casa Bautista de Publicaciones, El Paso, Texas, USA). Da mesma forma, o gramático de grego bíblico W.C.Taylor também cita em sua clássica gramática vários particípios condicionais: Rm 2.27; Gl 6.9; 1 Tm 4.4; Hb 7.1, inclusive Hb 2.3. No entanto, Taylor destaca: “mas não Heb 6.6.” (TAYLOR, W.C. Introdução ao Estudo do Novo Testamento – Gramática. Editora Batista Regular, São Paulo).   
[98] WUEST, Kenneth. Wuest’s Word Studies from the Greek New Testament, 4 vol. Eerdmans, Grand Rapids, Michigan,USA, 2002.  
[99] METZGER, Bruce M. Un Comentario Textual al Nuevo Testamento Griego. Sociedade Bíblica Unidas, 2006.
[100] The NKJV Study Bible. Grupo Nelson, Nashville, Tennessee, Estados Unidos, 2014.
[101] BEZA, Theodoro. Novum Testamentum Domini Nostri  Jesu Christi Interprete Theodoro Beza. D. Appleton & Company. New York, 1850. 
[102] Adam Clark Commetaries in the Whole Bible. GraceWorks Multimedia, USA.
[103] Adam Clark Commetaries in the Whole Bible. GraceWorks Multimedia, USA.
[104] SPURGEON, Charles. Hebrews – The Expansive Commentary Collection. Amazon Digital Service LLC, USA, Janeiro, 2017.
[105] KENDALL, R.T. Once Saved, Always Saved. pp. 176,177. Moody Press, Chicago,1985.
[106] The Holy Bible – New International Version. Zondervan Publishing House. Grand Rapids, Michigan. USA, 1984.
[107] Dave Hunt fez recentemente uma crítica ácida à teologia reformada e uma defesa acalorada dos principais pontos do arminianismo (HUNT, Dave. Que Amor é Este? – a falsa representação de Deus no calvinismo. Editora Reflexão).
[108] CORNER, Daniel D. The Believer’s Conditional Security. Evangelical Outreach. Washington Outreach, PA, USA.
[109] OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Publications. Grand Rapids, Michigan, USA.
[110] HARLESS, Hal. Fallen Away or Fallen Down? – The meaning of Hebrews 6.1-9.  Chafer Theological Seminary.
[111] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – uma sintaxe exegética do Novo Testamento. Editora Batista Regular do Brasil, São Paulo, 2009.
[112] OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Publications. Grand Rapids, Michigan, USA.
[113] TRENCH, Richard C. Synonyms of the New Testament. Cosimo Classics, New York, USA, 2007.
[114] Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil. Casa Publicadora das Assembleias de Deus.