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terça-feira, 23 de agosto de 2016

É POSSIVEL UMA TEOLOGIA PENTECOSTAL REFORMADA?
Por José Gonçalves
Há uma declaração feita em vídeo pelo reverendo Hernandes Dias Lopes que tem provocado euforia entre os pentecostais e espanto nos reformados. Nesse vídeo, ele afirma que a “Junção da teologia reformada com a unção, com o fervor pentecostal é uma coisa fenomenal”. 
Serial possível essa química? 
Para responder a essa pergunta primeiramente é necessário dizer que a “unção” e o “fervor” pentecostal do qual fala Lopes só existem em razão de uma fundamentação teológica. Não creio que seria correto dizer que existe uma teologia reformada sem um certo grau de unção, da mesma forma não creio existir uma unção pentecostal sem um embasamento teológico. No caso da teologia pentecostal a sua fundamentação teológica está fortemente enraizada na tradição protestante histórica como bem demonstrou Donald Dayton em sua obra Theological Roots of Pentecostalism (Raízes Teológicas do Pentecostalismo). 
Em segundo lugar, a forma como essas duas tradições protestantes interpretam o livro de Atos dos Apóstolos é de fundamental importância para a possibilidade ou não dessa química. Como essas duas tradições teológicas interpretam essa Escritura canônica? Os pentecostais acreditam que as narrativas bíblicas tem valor tanto quanto tem as partes didáticas. Os pentecostais não estão sozinhos nesse entendimento. William W. Klein; Graig L Blomberg e Robert L. Hubbard, Jr, todos respeitados eruditos, também tem entendimento semelhante. Dessa forma, os pentecostais acreditam que o livro de Atos é normativo e que por isso o seu conteúdo serve de material didático para a vida da igreja. Em outras palavras, as narrativas bíblicas são permeadas de instrução, isto é, são fontes de ensino (didáticas) para a vida da igreja. Paulo, por exemplo, usou o livro de Gênesis, que claramente é de natureza narrativa, para instruir os cristãos primitivos. 
Os pentecostais acreditam, como defendeu I. Howard Marshal, que Lucas não foi apenas um historiador, mas um teólogo que escreveu a história. Por isso não vêm necessidade alguma de “paulinizar” Lucas. Lucas, como um escritor canônico também foi inspirado pelo Espirito Santo assim como foi Paulo. Os escritos de Paulo assim como os de Lucas possuem autoridade semelhante visto terem sido inspirados pelo mesmo Espírito. Pensar de forma diferente é criar um cânon dentro de outro Cânon. 
Mas é na questão da glossolalia que a distância entre reformados e pentecostais se alarga. Lopes, por exemplo, escreveu em seu comentário ao livro de Atos: “Uma questão levantada pelos estudiosos é: as línguas mencionadas em Atos 2 são da mesma natureza daquelas mencionadas em 1 Coríntios 12 e 14? Há quem defenda a semelhança. Porém, entendemos que elas são diferentes”.
É exatamente aqui que essas duas correntes teológicas se distanciam. O livro Doutrinas Bíblicas na Perspectiva Pentecostal de William W. Menzies vai em direção oposta à declaração acima: 
“O batismo dos crentes no Espírito Santo é testemunhado pelo sinal físico inicial do falar em outras línguas, conforme o próprio Espírito lhes conceder (At 2.4). O falar em línguas, nessa instância, pertence à mesma essência que o dom de línguas (1 Co 12.4-10,28), mas é diferente quanto a seu propósito e uso”.
Pois bem, Lopes enumera várias razões, que supostamente, apoiariam sua tese. Vamos ver as principais delas, porque a meu ver algumas apenas repetem aquilo que outras já afirmaram. 
1. As línguas em Atos eram pregação; em Corinto oração. 
Não há nada em Atos que diga que as línguas eram pregação. Em Atos 2.4 os crentes falaram em línguas, mas somente em Atos 2.14 Pedro começa a pregar. Ninguém se converteu quando os crentes falaram em línguas, pelo contrário, acharam que eles estavam embriagados (At 2.13). Se as línguas em Atos foram pregação, então temos uma pregação sem convertidos. As conversões só aconteceram depois que Pedro pregou (At 2.37-41). As línguas em Atos eram da mesma natureza que foram em Corinto e quem diz isso é Lucas. Em Atos 2.11, uma referência as línguas conhecidas, Lucas afirma que esses crentes falam em línguas as grandezas de Deus (gr. megaleia). Ao se referir a experiência na casa de Cornélio, Lucas diz que os judeus que foram com Pedro se deram por convencidos de que a conversão dos crentes gentílicos era genuína porque os ouviam falando em línguas e “engrandecendo a Deus (gr. megalunô). Essas duas expressões, com funções sintáticas diferentes, possuem a mesma raiz grega. Não há dúvidas que no contexto elas expressam o mesmo sentido - adoração a Deus. 
2. As línguas em Atos eram entendidas; em 1 Coríntios não. 
Os pentecostais creem que o fenômeno da glossolalia é uma capacidade sobrenatural que o Espírito Santo dá ao crente (At 2.4). Nesse aspecto, podem ser línguas existentes, vivas, como foi no dia de Pentecostes ou uma linguagem espiritual desconhecida como aconteceu em Corinto (1 Co 14.1,2). Lopes afirma que “as línguas em Atos eram entendidas”. Teria sido mais correto afirmar que em Atos 2 as línguas eram entendidas, mas não há nada que sugira isso em Atos 10.44-46 e At 19.1-6. No entanto, Pedro diz tratar-se da mesma experiência (At 11.17). Se em Atos 2 as línguas foram entendidas, mas em Atos 10 e 19 não foram (nem havia necessidade disso, pois todos ali se comunicavam na mesma língua), no entanto, tratou-se da mesma experiência, não seria lógico concluir que as línguas são as mesmas em natureza e essência, mas com propósitos diferentes? 
3. As línguas em Atos foram dadas a grupos específicos; em 1 Coríntios é um dom espiritual dado a alguns. 
Essa teoria dos grupos, popularizada a partir de 1964 com a publicação da obra Batismo e Plenitude do Espirito do anglicano Jonh Stott é interessante, mas também não se sustenta. Em Atos 2 temos o grupo étnico formado por judeus; em Atos 8 temos o grupo étnico formado pelos samaritanos; em Atos 10 temos o grupo étnico formado pelos gentios. Mas em Atos 19 qual o novo grupo étnico? Ser discípulo de João Batista não configura a formação de nenhum grupo étnico. Não havia grupo nenhum, mas apenas 12 discípulos que ainda não haviam passado pela experiência pentecostal. Também não havia grupo nenhum em Corinto já que de acordo com teoria dos grupos os gentios são incluídos na etnia gentílica da casa de Cornélio. 
4. As línguas em Atos eram dialetos (At 2.6,8); em 1 Coríntios eram mistérios.
Lopes cita At 2.6,8 onde aparecem a palavra grega dialektos, mas omite At 2.11 onde Lucas usa no texto grego a palavra glossa, o mesmo vocábulo que Paulo usa em 1 Coríntios em referência as línguas como mistérios. Logo a glossolalia pode se referir ao fenômeno de uma língua desconhecida ou não. É preciso destacar que Lucas usa a palavra dialetos para o fenômeno do Pentecostes de Jerusalém, mas não faz o mesmo quando narra a mesma experiência pentecostal que ocorreu na casa de Cornélio e Éfeso. Nessas ocasiões ele se limita a usar a palavra glossa. A razão parece bastante óbvia: em Jerusalém havia gente de várias nacionalidades e o Espírito Santo, que distribui os dons como quer, quis se expressar nas línguas das diferentes nacionalidades. Todavia não havia razão para isso em Cesaréia e Éfeso onde todos falavam a mesma língua.
5. As línguas em Atos são profecia; em 1 Coríntios são oração.
Paulo diz que as línguas quando interpretadas equivalem a profecia (1 Co 14.5), mas o livro de Atos deixa bem claro que são dons distintos: “Tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6). 
6. As línguas em Atos eram uma evidência do enchimento do Espírito; mas 1 Coríntios elas não têm conexão com a plenitude do Espírito. 
Aqui o autor faz uma distinção entre “enchimento do Espírito” e “plenitude do Espirito”. Basta pegar a concordância da bíblia grega para se constatar que os termos “receber o Espírito”, “caiu o Espírito”, “batismo no Espírito”, “cheios do Espírito” e “revestidos de poder” são usados de forma intercambiável. Aos crentes de Éfeso, sobre os quais “veio o Espírito Santo” depois que Paulo orou e lhes impôs as mãos (At 19.1-6), o apóstolo Paulo exorta a “continuarem sendo cheios do Espírito” (Ef 5.18). 
7. As línguas em Atos cessaram; em 1 Coríntios continuaram. 
Se os pentecostais não falam as línguas do Pentecostes relatadas em Atos porque elas cessaram, resta dizer que eles falam as línguas de Corinto. Nesse caso não seriam pentecostais, mas corintianos. Por que as línguas de Atos 10.44-46 e 19.1-6, sobre as quais não há nenhum relato de inteligibilidade deixaram de existir e as de Corinto, que são da mesma natureza continuariam existindo? Não há nenhuma evidência textual que possa levar alguém afirmar que as línguas de Atos deixaram de existir. Se alguém quer encontrar essas evidências não deve procura-las no texto bíblico. 
Eu creio numa teologia reformada com unção pentecostal, mas quando todos estivermos falando a mesma língua. 
(José Gonçalves, escritor, professor de grego, hebraico, exegese e teologia sistemática)