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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

É POSSIVEL UMA TEOLOGIA PENTECOSTAL REFORMADA?
Por José Gonçalves
Há uma declaração feita em vídeo pelo reverendo Hernandes Dias Lopes que tem provocado euforia entre os pentecostais e espanto nos reformados. Nesse vídeo, ele afirma que a “Junção da teologia reformada com a unção, com o fervor pentecostal é uma coisa fenomenal”. 
Serial possível essa química? 
Para responder a essa pergunta primeiramente é necessário dizer que a “unção” e o “fervor” pentecostal do qual fala Lopes só existem em razão de uma fundamentação teológica. Não creio que seria correto dizer que existe uma teologia reformada sem um certo grau de unção, da mesma forma não creio existir uma unção pentecostal sem um embasamento teológico. No caso da teologia pentecostal a sua fundamentação teológica está fortemente enraizada na tradição protestante histórica como bem demonstrou Donald Dayton em sua obra Theological Roots of Pentecostalism (Raízes Teológicas do Pentecostalismo). 
Em segundo lugar, a forma como essas duas tradições protestantes interpretam o livro de Atos dos Apóstolos é de fundamental importância para a possibilidade ou não dessa química. Como essas duas tradições teológicas interpretam essa Escritura canônica? Os pentecostais acreditam que as narrativas bíblicas tem valor tanto quanto tem as partes didáticas. Os pentecostais não estão sozinhos nesse entendimento. William W. Klein; Graig L Blomberg e Robert L. Hubbard, Jr, todos respeitados eruditos, também tem entendimento semelhante. Dessa forma, os pentecostais acreditam que o livro de Atos é normativo e que por isso o seu conteúdo serve de material didático para a vida da igreja. Em outras palavras, as narrativas bíblicas são permeadas de instrução, isto é, são fontes de ensino (didáticas) para a vida da igreja. Paulo, por exemplo, usou o livro de Gênesis, que claramente é de natureza narrativa, para instruir os cristãos primitivos. 
Os pentecostais acreditam, como defendeu I. Howard Marshal, que Lucas não foi apenas um historiador, mas um teólogo que escreveu a história. Por isso não vêm necessidade alguma de “paulinizar” Lucas. Lucas, como um escritor canônico também foi inspirado pelo Espirito Santo assim como foi Paulo. Os escritos de Paulo assim como os de Lucas possuem autoridade semelhante visto terem sido inspirados pelo mesmo Espírito. Pensar de forma diferente é criar um cânon dentro de outro Cânon. 
Mas é na questão da glossolalia que a distância entre reformados e pentecostais se alarga. Lopes, por exemplo, escreveu em seu comentário ao livro de Atos: “Uma questão levantada pelos estudiosos é: as línguas mencionadas em Atos 2 são da mesma natureza daquelas mencionadas em 1 Coríntios 12 e 14? Há quem defenda a semelhança. Porém, entendemos que elas são diferentes”.
É exatamente aqui que essas duas correntes teológicas se distanciam. O livro Doutrinas Bíblicas na Perspectiva Pentecostal de William W. Menzies vai em direção oposta à declaração acima: 
“O batismo dos crentes no Espírito Santo é testemunhado pelo sinal físico inicial do falar em outras línguas, conforme o próprio Espírito lhes conceder (At 2.4). O falar em línguas, nessa instância, pertence à mesma essência que o dom de línguas (1 Co 12.4-10,28), mas é diferente quanto a seu propósito e uso”.
Pois bem, Lopes enumera várias razões, que supostamente, apoiariam sua tese. Vamos ver as principais delas, porque a meu ver algumas apenas repetem aquilo que outras já afirmaram. 
1. As línguas em Atos eram pregação; em Corinto oração. 
Não há nada em Atos que diga que as línguas eram pregação. Em Atos 2.4 os crentes falaram em línguas, mas somente em Atos 2.14 Pedro começa a pregar. Ninguém se converteu quando os crentes falaram em línguas, pelo contrário, acharam que eles estavam embriagados (At 2.13). Se as línguas em Atos foram pregação, então temos uma pregação sem convertidos. As conversões só aconteceram depois que Pedro pregou (At 2.37-41). As línguas em Atos eram da mesma natureza que foram em Corinto e quem diz isso é Lucas. Em Atos 2.11, uma referência as línguas conhecidas, Lucas afirma que esses crentes falam em línguas as grandezas de Deus (gr. megaleia). Ao se referir a experiência na casa de Cornélio, Lucas diz que os judeus que foram com Pedro se deram por convencidos de que a conversão dos crentes gentílicos era genuína porque os ouviam falando em línguas e “engrandecendo a Deus (gr. megalunô). Essas duas expressões, com funções sintáticas diferentes, possuem a mesma raiz grega. Não há dúvidas que no contexto elas expressam o mesmo sentido - adoração a Deus. 
2. As línguas em Atos eram entendidas; em 1 Coríntios não. 
Os pentecostais creem que o fenômeno da glossolalia é uma capacidade sobrenatural que o Espírito Santo dá ao crente (At 2.4). Nesse aspecto, podem ser línguas existentes, vivas, como foi no dia de Pentecostes ou uma linguagem espiritual desconhecida como aconteceu em Corinto (1 Co 14.1,2). Lopes afirma que “as línguas em Atos eram entendidas”. Teria sido mais correto afirmar que em Atos 2 as línguas eram entendidas, mas não há nada que sugira isso em Atos 10.44-46 e At 19.1-6. No entanto, Pedro diz tratar-se da mesma experiência (At 11.17). Se em Atos 2 as línguas foram entendidas, mas em Atos 10 e 19 não foram (nem havia necessidade disso, pois todos ali se comunicavam na mesma língua), no entanto, tratou-se da mesma experiência, não seria lógico concluir que as línguas são as mesmas em natureza e essência, mas com propósitos diferentes? 
3. As línguas em Atos foram dadas a grupos específicos; em 1 Coríntios é um dom espiritual dado a alguns. 
Essa teoria dos grupos, popularizada a partir de 1964 com a publicação da obra Batismo e Plenitude do Espirito do anglicano Jonh Stott é interessante, mas também não se sustenta. Em Atos 2 temos o grupo étnico formado por judeus; em Atos 8 temos o grupo étnico formado pelos samaritanos; em Atos 10 temos o grupo étnico formado pelos gentios. Mas em Atos 19 qual o novo grupo étnico? Ser discípulo de João Batista não configura a formação de nenhum grupo étnico. Não havia grupo nenhum, mas apenas 12 discípulos que ainda não haviam passado pela experiência pentecostal. Também não havia grupo nenhum em Corinto já que de acordo com teoria dos grupos os gentios são incluídos na etnia gentílica da casa de Cornélio. 
4. As línguas em Atos eram dialetos (At 2.6,8); em 1 Coríntios eram mistérios.
Lopes cita At 2.6,8 onde aparecem a palavra grega dialektos, mas omite At 2.11 onde Lucas usa no texto grego a palavra glossa, o mesmo vocábulo que Paulo usa em 1 Coríntios em referência as línguas como mistérios. Logo a glossolalia pode se referir ao fenômeno de uma língua desconhecida ou não. É preciso destacar que Lucas usa a palavra dialetos para o fenômeno do Pentecostes de Jerusalém, mas não faz o mesmo quando narra a mesma experiência pentecostal que ocorreu na casa de Cornélio e Éfeso. Nessas ocasiões ele se limita a usar a palavra glossa. A razão parece bastante óbvia: em Jerusalém havia gente de várias nacionalidades e o Espírito Santo, que distribui os dons como quer, quis se expressar nas línguas das diferentes nacionalidades. Todavia não havia razão para isso em Cesaréia e Éfeso onde todos falavam a mesma língua.
5. As línguas em Atos são profecia; em 1 Coríntios são oração.
Paulo diz que as línguas quando interpretadas equivalem a profecia (1 Co 14.5), mas o livro de Atos deixa bem claro que são dons distintos: “Tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6). 
6. As línguas em Atos eram uma evidência do enchimento do Espírito; mas 1 Coríntios elas não têm conexão com a plenitude do Espírito. 
Aqui o autor faz uma distinção entre “enchimento do Espírito” e “plenitude do Espirito”. Basta pegar a concordância da bíblia grega para se constatar que os termos “receber o Espírito”, “caiu o Espírito”, “batismo no Espírito”, “cheios do Espírito” e “revestidos de poder” são usados de forma intercambiável. Aos crentes de Éfeso, sobre os quais “veio o Espírito Santo” depois que Paulo orou e lhes impôs as mãos (At 19.1-6), o apóstolo Paulo exorta a “continuarem sendo cheios do Espírito” (Ef 5.18). 
7. As línguas em Atos cessaram; em 1 Coríntios continuaram. 
Se os pentecostais não falam as línguas do Pentecostes relatadas em Atos porque elas cessaram, resta dizer que eles falam as línguas de Corinto. Nesse caso não seriam pentecostais, mas corintianos. Por que as línguas de Atos 10.44-46 e 19.1-6, sobre as quais não há nenhum relato de inteligibilidade deixaram de existir e as de Corinto, que são da mesma natureza continuariam existindo? Não há nenhuma evidência textual que possa levar alguém afirmar que as línguas de Atos deixaram de existir. Se alguém quer encontrar essas evidências não deve procura-las no texto bíblico. 
Eu creio numa teologia reformada com unção pentecostal, mas quando todos estivermos falando a mesma língua. 
(José Gonçalves, escritor, professor de grego, hebraico, exegese e teologia sistemática)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO E COM FOGO


O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO E COM FOGO

Por José Gonçalves

Em sua famosa gramática de grego neotestamentário (Gramática Exegética do Grego Neo-testamentário, Ed. Cultura Cristã), o escritor William Chamberlain nos aponta cinco princípios que devem ser levados em conta na interpretação de um texto bíblico.
1.      Interpretar Lexicamente;
2.      Interpretar Sintaticamente;
3.      Interpretar Contextualmente;
4.      Interpretar Historicamente;
5.      Interpretar Analogicamente
Duas passagens bíblicas onde esses princípios de interpretação devem ser levados em conta é, sem dúvida alguma, Mateus 3.11 e Lucas 3.16. Nesses textos, João, o batista, diz que o Messias seria aquele que batizaria “com o Espírito Santo e com fogo”. O sentido atribuído por alguns a essas Escrituras, a grosso modo, é que Jesus batiza os crentes com o Espírito Santo e o ímpios com o fogo da condenação. Há, portanto, segundo essa interpretação dois batismos: um com o Espírito Santo e outro com fogo. Os pentecostais são acusados de fazer uma exegese superficial desses textos porque divergem desse entendimento. Mas uma exegese que leva em conta os princípios de interpretação enumerados acima não deixa dúvida que a expressão “batismo com o Espírito Santo e com fogo” se refere a uma única experiência e que está ligada ao evento de Pentecostes, conforme registra Atos 2.1-4.  Em outras palavras, a expressão “batismo no Espírito Santo e com fogo” é uma referência à chama pentecostal que veio sobre os discípulos no Cenáculo.
Não há dúvida que todo teólogo sério, despido de preconceito confessional, e que leva em conta os princípios hermenêuticos e exegéticos de interpretação sabe que o entendimento pentecostal desse texto conta com solida fundamentação exegética. Impressiona a maneira dogmática de alguns teólogos na análise desse texto. Motivados por um zelo de natureza simplesmente confessional e, muito mais por um anti-pentecostalismo radical, não se dão conta quem nem mesmo estão observando as regras que são exigidas na interpretação de um texto bíblico. Parece que se valem da velha máxima ensinada por Arthur Schopenhauer para se ganhar um debate. Schopenhauer ensinou como se ganhar um debate, mesmo sem ter razão. De acordo com ele quando alguém está em desvantagem em um debate, isto é, não tem razão, a única forma de tentar vencê-lo é acusando ou ironizando o desafiante.  Parece-me que muitos estão recorrendo a esse método para tentar desqualificar a hermenêutica pentecostal.   
Pois bem, há muito a erudição conservadora tem mantido entendimento idêntico aquele que os pentecostais clássicos têm dos textos de Mateus 3.11 e Lucas 3.16. Divergem, sim, quanto à função,  mas não quanto a forma. D. A. Carson, cuja erudição é inquestionável e que é considerado como uma das maiores autoridades em manuscritos do Novo Testamento Grego, ao comentar essa passagem, diz: “Muitos veem isso como um duplo batismo, um no Espírito Santo para o justo e outro no fogo para o impenitente (cf. o trigo e a palha no v.12). O fogo (Ml 4.1) destrói e consome. Há bons motivos, contudo, para falar de “fogo”, junto com o Espírito Santo, como agente purificador. As pessoas a quem João se dirige estão sendo batizadas por ele; elas, provavelmente, arrependeram-se. Mais importante, a preposição em (“com”) não é repetida antes de fogo: uma preposição governa o “Espírito Santo” e o “fogo”, e isso normalmente sugere um conceito unificado, Espírito-fogo, ou algo semelhante (cf. M.J. Harris, DNTT, 3.1178; Dunn Baptism [Batismo], p. 10-13). No Antigo Testamento, fogo, com frequencia, tem uma conotação purificadora, não destrutiva (e.g., Is 1.25; Zc 13.9; Ml 3.2,3). O batismo de água de João relaciona-se com arrependimento; mas aquele de quem ele prepara o caminho adminstrará o batismo de Espírito-fogo que purifica e refina a pessoa. Em uma época na qual muitos judeus sentiam que o Espírito Santo fora removido até a era messiânica, esse anúncio só podia ser saudado com animada antecipação.” (CARSON, D.A. O Comentário de Mateus, Editora SHEDD, pp.35).
A interpretação de Carson, sem dúvida, demonstra a leitura mais natural desse texto. Carson não está sozinho. Charles Ellicott (1848-1905) em sua obra  A Bible Commentary for English Reader tem entendimento igual. Em seu clássico Clarke’s Commentary, Adam Clark (1760-1832), erudito inglês, escreveu. “Não custa demonstrar que aqui se faz referência as influências do Espírito de Deus. A religião de Cristo haveria de ser uma religião, e teria seu lugar no coração. Os preceitos exteriores, por mais que pudessem descrevê-la, não poderiam descrever a espiritualidade interior. Isto estava reservado ao Espírito de Deus e somente a Ele. Por conseguinte ele é representado pelo símbolo do fogo, porque Ele haveria de iluminar e revigorar a alma, penetrar todas as suas partes, e assimilar toda a imagem do Deus de glória” (CLARE, Adam. Comentario de la Santa Bíblia Adam Clarke – Tomo III, Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones, USA). Da mesma forma, Friz Rieneckr (1897-1965), erudito alemão, comentando Lucas 3.16, diz: “O fogo no v.16 designa, ademais, a atividade do Espírito também sob o aspecto de sua atuação negativa, uma vez que ele consome tudo o que atrapalha a formação do novo ser humano devotado a Deus e que precisa ser aniquilado. Por consequência, o fogo é uma imagem de juizo, mas do juízo misericordioso que purifica e limpa, como o fogo do ourives. O fogo no v.17, em contrapartida, é a imagem do juízo final que se furtarem ao fogo sagrado na santificação. Por isso ele também  é expressamente diferenciado do fogo no v.16 por meio do adendo “inextinguível” i.é, eterno (Cf Mt 18.8:incessante. RIENECKER, Fritz. Comentário de Lucas – comentário esperança. Editora Esperança). O Expositor bíblico James Bartley ao comentar Mt 3.11, observa: “A pegunta é se fogo representa a ação purificadora de Deus na vida dos que são batizados no Espírito Santo, ou seja, os crentes ou se é uma referência aos incrédulos e rebeldes que serão catigados com fogo? Posto que o texto diz os batizará no Espírito Santo e fogo (v.11), parece que ambas figuras se referem aos mesmo objetos, ou seja aos crentes” (BARTLEY, James. Mateus - Comentário Mundo Hispano. Editorial Mundo Hispano, USA).
Francisco Lacueva, erudito e autor do clássico Nuevo Testamento Interlinear Griego – Español, destaca que: “Quem é batizado com o Espírito Santo, é batizado com fogo. O fogo é iluminador? Assim é o Espírito Santo, um Espírito de iluminação. O fogo acalenta? E não ardia seus corações dentro deles? O fogo consome? E não consome o Espírito de Juízo a escória de nossas corrupções? Não tem o fogo a tendência de subir e faze com que as coisas que alcança se assemelhe a ele? Assim o Espírito faz a alma semelhante a ele e sua tendência é subir até o céu”.
No periodo da Reforma, tanto Erasmo de Roterdã, católico, como João Calvino , protestante, entendiam essa Escritura como se referindo ao fato único. Respondendo à pegunta: Como Entender Mateus 3.11?, Calvino, responde: “Que terá querido João dizer então, quando afirmou que ele batizava com água, mas que depois viria aquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo? Isso pode ser explicado rapidamente. João não quis distinguir entre um Batismo e o outro, mas o que fez foi uma comparação da sua pessoa com a de Jesus Cristo. E então se declarou ministro da água, e Cristo o doador do Espírito Santo, e que ele manifestaria esse poder por meio de um milagre visível no dia em que haveria de enviar o Espírito Santo aos seus apóstolos mediante línguas de fogo” (CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã, vol 3, pp.164. Editora Cultura Cristã).  
Fica cada vez mais claro que essa é a interpretação mais apropriada desses textos. Se  esse é o entendimento natural dessas Escrituras, de onde vem a interpretação do duplo batismo? Há um consenso entre os eruditos que essa interpretação é conhecida a partir de Orígenes. O expositor bíblico Johan Friedrich von Meyer (1800-1873) defende a tese do duplo batismo e credita a Orígenes a paternidade desse entendimento. Mas o próprio Meyer reconhece que eruditos da envergadura de Erasmus de Roterdã, Beza e Calvino tem entendimento contrário. Deve ser destacado que o próprio fato em se associar a figura de Orígenes (185- 254 d.C) à interpretação de Mt 3.11 e Lc 3.16 deveria levar aqueles que defendem a tese do duplo batismo a serem mais cautelosos em seus dogmatismos. Orígenes, que foi um primeiros pais da igreja, sofreu influência do platonismo, pois foi discípulo de Ammonius Saccus, o fundador do neoplatonismo e do alegorismo de Filo de Alexandria. A sua forma de interpretar a Bíblia é duramente criticada por abusar do subjetivismo e alegorismo. O escritor Paulo Anglada ao se referir ao método usado por Orígenes, diz: “esse método pode fornecer interpretações muito interessantes, mas tira o verdadeiro sentido que o texto tencionou transmitir, desviando a atenção do leitor do seu verdadeiro significado” (ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reformada).
Em seu clássico Greek Testament Commentary (Comentário do Novo Testamento Grego), o erudito e crítico textual Henry Alford (1810 – 1871), quando comenta Mateus 3.11, chama a atenção para esse fato. Ao analisar o texto de Mateus 3.11, diz: “Isto foi literalmente cumprido no dia de Pentecostes, mas Orígenes e outros se referem as palavras para o batismo dos justos pelo Espírito Santo, e dos ímpios pelo fogo. Eu não tenho nenhuma dúvida de que isto (o que eu estou surpreso de ver confirmada pelo Neander, De Wette, e Meyer) é um erro no presente caso, embora aparentemente (para o leitor superficial) corroborada pelo ver. 12 (...) Para separar  pneuma hagio (Espírito Santo) como pertencente a um conjunto de pessoas, e puri (fogo) como pertencente a outro, quando ambos estão unidos em (hymas, vos), está no último grau de dificuldade, além de introduzir confusão no todo. Os elementos de comparação neste versículo são estritamente paralelos um do outro: o batismo por água, o fim do qual é metanoia (arrependimento), um estado de transição simples, uma nota de preparação, - e o batismo através Espírito Santo e fogo, o fim do qual é (ver. 12) santificação”.
 Os eruditos Roberto Jamieson, A.R. Fausset e David Brown no clássico Comentario Exegetico y Explicativo de La Biblia, ao comentarem Mateus 3.11, destacam: “Ver esse batismo como sendo algo distinto ao do Espírito, ou seja um batismo dos não arrependidos com o fogo do inferno, é algo fora do normal. Sem dúvida esta era a idéia de Origenes entre os “pais” e de Neander, Meyer, De Wette e Lange entre os modernos. Não ajuda muito pensar que esse fogo no último dia, quando a terra e as obras que há nela serão queimadas. Em nosso conceito, se trata do caráter flamejante da obra do Espírito na alma que esquadrinha, consome, refina e sublima. É assim como os bons intérpretes entendem essas palavras” (vol. II, pp.19).
A hermenêutica pentecostal destaca que esse é o entendimento que se deve manter acerca dos eventos do Jordão, ocorridos por ocasião do batismo realizado por João Batista. E faz dessa forma porque entende que as palavras do batista, quando se referiu ao “batismo de fogo” estão intimamente ligadas as “línguas de fogo” do Cenáculo (At 2.1-4). Ao comentar a passagem:“ E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles” (At 2.2), o teólgo Simon Kistemaker, diz: “Este é o cumprimento da descrição de João Batista acerca do poder de Jesus: Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento, o fogo é frequentemente usado como símbolo da presença de Deus em relação à santidade, ao juízo e à graça” (KISTEMAKER, Simon. Comentario do Novo Testamento, Atos, volume 1. Editora Cultura Cristã). Semelhantemente o expositor Samuel Pérez Millos em sua série de comentários exegéticos, feitos a partir do texto grego, destaca o carater purificador que o batismo no Espírito Santo teria sobre os cristãos (MILLOS, Samuel Perez. Mateo – comentrio exegético al texto griego del nuevo testamento. Editorial CLIE). Em seu exaustivo comentario de Atos, com 1963 páginas, Millos destaca esse vínculo entre o Jordão e o cenáculo. “Este bendito batismo será também com fogo. O próprio acontecimento do Pentecostes com a descida do Espírito Santo sobre a igreja, harmoniza plenamente com as línguas como de fogo, repartidas sobre cada um dos presentes (...) O simbolismo do fogo está ligado a representação de Deus. O fogo é sinal da presença de Deus, como quando apareceu a Moisés como chama de fogo (Ex 3.2). Nesse mesmo sentido o fogo foi sinal de aprovação divina, como na construção do Tabernáculo (Lv 9.24); no sacrifício de Elias no monte Carmelo (1 Rs 18.38). Sinal da proteção divina, como ocorreu com a condução de Israel (Ex 13.21) (MILLOS, Samuel Perez. Echos – comentario exegético ao texto griego del nuevo testamento, pp. 139. Editorial CLIE).
O teólogo anglicano John Stott, cuja hermenêutica é claramente anti-pentecostal, reconhece que o vínculo existente entre Mateus 3.11 e At 2.3. Comentando esta última referência bíblica, diz: “Se permitirmos que outras partes das Escrituras nos guie na interpretação, parece que esse três sinais (vento, fogo e fala) representavam pelo menos o início da nova era do Espírito (João Batista havia associado o vento ao fogo) e nova obra que ele viera realizar. Se for esse o caso, o som como de um vento pode simbolizar o poder (que Jesus havia prometido, para que testemunhassem, Lc 24.49; At 1.8), a visão do fogo, a pureza (como a brasa viva que purificou Isaias, 6.6-7) e o falar em outras línguas, a universalidade da igreja cristã” (STOTT, John. A Mensagem de Atos. ABU Editora. Grifos meus). De forma análoga, o expositor William Hendriksen associa Atos 2.3 a Lucas 3.16, quando comenta esta última. “A menção ao fogo (“Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”) harmoniza essa aplicação com o Pentecostes, “quando lhes apareceram divididas línguas de fogo, repousando sobre cada um deles (At 2.3). A chama ilumina, o fogo purifica. O Espírito faz ambas as coisas”. (HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas, vol. 1. Editora Cultura Cristã). Esse vínculo também é visto pelo comentarista Werner de Boor. Em sua obra intitulada Atos dos Apóstolos, ao comentar a expressão: “E apareceram-lhes línguas separando-se, como de fogo”, diz: “João Batista já havia falado do batismo “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11). Desde sempre o “fogo” foi, como “luz” e a “tempestade”, um sinal da essência e da atuação divinas” (BOOR, Wener. Atos dos Apóstolos. Editora Esperança).
Afirmei nesse texto que essa é a interpretação mais fiel que se pode ter dessas Escrituras e que esse entendimento é mantido por pentecostais e não pentecostais. Disse também que a divergência não é tanto na forma, mas na função. Os cristãos, identificados na tradição protestante como históricos, acreditam que o batismo no Espírito Santo está relacionado à habitação do Espírito enquanto nós pentecostais acreditamos que essa relação é de capacitação. No primeiro aspecto, a experiência do batismo no Espírito se confunde com a conversão enquanto no segundo ela é distinta e separada da mesma. Mas essa já é uma outra questão que tratarei em um outro artigo. O ponto aqui é que o batismo no Espírito Santo e com fogo profetizado por João, o batista, é visto pela ampla maioria dos eruditos conservadores como se tratando de uma única experiência e está associada à vida cristã. Portanto, ironizar os pentecostais porque creem dessa forma é recorre ao desespero Schopenhaueriano.

José Gonçalves, escritor, graduado em Teologia pelo Seminário Batista e em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí. Professor de grego, exegese e teologia sistemática.